Agnaldo Farias. Jogando com os limites. (excerto do texto). Publicado no catálogo da exposição na Amparo Sessenta Galeria de Arte – 2009 -

Ao invés de se expandirem para fora, em direção ao espaço circundante, um denominador comum da maioria das instalações e outras variantes da noção clássica de escultura, os trabalhos de Hermano privilegiam a membrana que separa seu interior do mundo. Sob a forma de volumes de superfícies porosas, intrincadas e espessas, relevos fixados na parede e até próteses que se aplicam ao corpo, em qualquer caso suas construções atraem o nosso olhar para perto, para a pele e daí para as entranhas da pele, levando-o a constatar que os corpos, a contar de seus limites, são, parafraseando Herberto Helder “um texto que se multiplica por dentro, sem crescer, cruzado incessantemente por túneis, corredores e caminhos de pronúncia áspera”. (“Poesia toda”, Lisboa: Assírio Alvim, 1981, p. 381).

Grandes e pequenas, no mais das vezes constituída de matéria dita banal e ordinária, como esponjas de cozinha, chapinhas de latão, capacitores eletrônicos e caminhõezinhos de plástico, minúcias irrelevantes, essas obras, que chegam a assumir a magnitude de uma sala, flertam com a vária matéria comum e com seus resíduos, defendendo-os como significativos e cheios de energia, como esses pequenos flocos de sujeira que se vão juntando com o passar dos dias, essas enigmáticas colônias de matéria sutil – parte delas, como se sabe, confeccionada pelas peles dos moradores, produzidas pela ação discretíssima dos afluentes dos ventos que, curiosos, insinuam-se pelo interior de nossas casas, vasculhando-as. Não se dá o mesmo com as sobras diárias deixadas por uma sociedade como a nossa?

Dotadas de tessituras tortuosas, várias dos relevos, esculturas e instalações de Luiz Hermano são produzidas pela articulação sistemática e rítmica de fios – cobre, alumínio, aço etc. A maioria desses volumes é oca e leve, enquanto suas peles, de resto responsáveis por sua rigidez variável, são cascas crespas e arejadas, que se abrem para o ar ao mesmo tempo em que a organização da matéria que as constitui evoca a energia desprendida pelas mãos do artista quando da sua produção. A energia empregada vai confluindo para essas estruturas de separação entre o dentro e o fora, para as membranas, a medida em que vão sendo construídas, adquirindo suas formas. Uma vez terminadas, essas formas, ao passo em que fazem circular a energia aprisionada, levam nossos olhos juntos no mesmo movimento que enunciam.

A dubiedade de referências é um aspecto dos mais fecundos desses relevos. São pinturas ou esculturas? A dimensão pictórica transparece nos contrastes entre cores primárias e seus subtons, presentes nos objetos industrializados, propícios a composições circulares e as reticuladas.

Os relevos, esculturas e instalações de Luiz Hermano deflagram em nós dois grandes cursos do olhar: olhar como ler, identificando letras, números e objetos; olhar como ceder ao fascínio daquilo que é visto, enredado nos pormenores de matéria ou na lógica impermeável das construções. Um efeito que ele obtém pensando a pele de suas peças, a película mais ou menos espessa que separa o íntimo do mundo. No caso dos relevos, afixados que estão contra as paredes, a pele não é propriamente separação de nada, apenas a ênfase de si; uma demonstração que, afinal, tudo está na superfície porque a superfície é tudo o que há. No caso dos volumes, ao mesmo tempo em que nos leva a refletir sobre o interior, o lado de lá das coisas, e que no geral o artista mantém visível não obstante inacessível, a pele segue sendo o aspecto fundamental, aquilo que, do ponto de vista estrutural, garante a unidade da forma, e, simultaneamente, prenhe de acontecimentos, um mundo em si mesmo. Qualquer que seja o caso elas fixam nossos olhos em sua órbita, injetam-lhes gravidade; coloca-nos de frente de situações obscuras e misteriosas: a mesa onde o imaginário e a fantasia se alimentam.