Adriana Dória Matos. Artista cria esculturas flexíveis e móveis, feitas com linhas elegantes. Publicado no Diário de Pernambuco, 06/04/1999, por ocasião da exposição, na Ária Galeria de Arte, Recife – 1999

Você olha uma obra de arte num catálogo e gosta do que vê. Aquela peça não está dimen­sionada no espaço real, não é tátil, mas você imagina que, pelo que ela aparenta e pelo que a cerca – apresen­tação, currículo do artista, local onde a obra está exposta, etc. – ela é de boa qualidade. Você pode estar errado ou não, mas só saberá vendo ao vivo. É através de fotos, livros e catálogos que conhecemos a maior parte das obras de arte que estão pulverizadas no mundo e só vamos saber seus verdadeiros valores, só vamos poder nos emocio­nar diante delas quando elas estive­rem bem na nossa frente.

Ao olhar a obra de Luiz Hermano impressa no catálogo de sua primei­ra exposição no Recife, sem dúvida, entendermos tratar-se de um trabalho contemporâneo, de elaboração enge­nhosa e resultado sóbrio e sofistica­do. Além da boa impressão que a reprodução de sua obra causa, ressal­tada pela elegância do catálogo, fica­mos ainda mais propensos a conec­tar o trabalho deste cearense de 44 anos, radicado há 20 em São Paulo, ao de grandes artistas.

Conforme lemos na apresentação do artista, ele já expôs em várias par­tes do mundo, tem obras em acervos permanentes de instituições respei­táveis – como a Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, o Museu de Arte Moderna de São Paulo, o Museu de Arte Contemporânea de Curitiba – e já foi convidado a participar de mostras elementares, como a Bienal Inter­nacional de São Paulo (em 1987 e 1991), a Bi­enal Pan-Americana de Havana (84) e as imensas exposições internacionais da Ga­leria Joel Edelstein, em Miami e Chicago (94).

Quer dizer, tudo cre­dita Luiz Hermano e sua obra. E mesmo assim, nada tira o pra­zer de ver a obra exposta, entrar em contato com sua materialidade, ana­lisar os materiais usados, imaginar percursos criativos.

MÓBILES DE METAL-Luiz Hermano desenvolve esculturas em grande e médio formatos usando metais: cobre, bronze, alumínio ou aço inoxidável.

Não os mistura. Seu trabalho é basi­camente de recorte, montagem e cons­trução. Ele diz que vai buscar estas formas em elementos complexos ou banais, como rabiscos que fazemos enquanto falamos ao telefone. “São desenhos do inconsciente, que têm como base o desenho”, descreve o artis­ta. “As esculturas são todas articuladas, lúdicas e pretendem quebrar com a rigidez das formas. Faço-as assim por­que nasci numa rede”, brinca.

Mas, nem sempre o trabalho de Hermano foi escultura. Em sua expe­riência como artista autodidata – “Es­tudei filosofia porque não tinha curso de arte em Fortaleza” -, passou pelo desenho, gravura em metal e pintu­ra. “Passei anos corno gravador. Meu trabalho dos anos 80 foi a pintura e a escultura tem sido o dos anos 90″, sintetiza. “No princípio, meus traba­lhos eram super povoados, naquela ânsia de dizer tudo típica dos autodi­datas. Com o tempo fui lapidando, organizando as ideias, adquirindo ele­gância e eliminando os excessos”.

Para este artista, o despojamento é fundamental: “a arte deve procu­rar ser original, simples, usando o mínimo”. Para chegar ao resultado que deseja, Luiz Hermano não pára de trabalhar. Ele diz que nem todas as obras são fáceis. A única coisa que faz o artista parar são as viagens. “Me considero um cara de sorte, por­que, mesmo tendo nascido na clas­se média, numa pequena cidade do Interior do Ceará (Preaoca), tenho via­jado para várias partes do mundo, o que me dá subsídio fundamental à criação”.

Luiz Hermano morou em Paris, Berlim e Nova Iorque, mas admite que sua paixão pela Europa e Estados Unidos arrefeceu, dando lugar à Ásia. Ele esteve recentemente na índia, Nepal, Tailândia Camboja, Indonésia. As escolhas pessoais enfatizam as esco­lhas artísticas de Hermano, que passa por um processo de limpeza.

Em 1996, o artista passou três meses no mosteiro Zen Budista do Morro da Viagem, no Espírito Santo. A esta­da gerou uma exposição no próprio local, que foi mostrada, em seguida, na Universidade Federal do Espírito Santo. As peças que o público per­nambucano vai ver foram produzi­das nos últimos dois anos e agora, o artista já aponta para um novo cami­nho criativo: suas obras mais recentes trazem materiais vindos de lixos e fer­ros velhos. A nature­za agradece.