Abílio Gurgel. Forjadas em puro talento. Publicado no Diário do Nordeste, em 26/12/1998, por ocasião da exposição no Centro Cultural do Abolição, Fortaleza, CE – 1998

Artista multifacetado e cidadão do mundo por opção, o cearense Luiz Hermano sem­pre buscou em suas viagens não apenas o conhecimento do novo – tão peculiar aos andari­lhos – mas também a matéria prima básica para seus futuros trabalhos. Em cada cultura, seja dos racionais alemães ao milenares tailandeses, Herma­no capta pequenas nuanças que se transmutam nas mais variadas formas, cores e, so­bretudo, pensamentos.

Um pouco deste “pensamen­to” concreto é o que ele vem ofe­recendo ao público cearense com a mostra “Esculturas”, em cartaz no Centro Cultural da Abolição até o próximo dia 28 de fevereiro. A exposição mar­ca o retorno de Luiz Hermano aos salões de sua terra natal. A última individual do artista aconteceu há 12 anos, sendo que em 1996, ele participou, na condição de convidado espe­cial, da 47a edição do Salão de Abril.

Luiz Hermano é hoje um dos mais importantes nomes das artes plásticas, respeitado na­cional e internacionalmente, com obras presentes em cole­ções particulares e museus.

Nascido na Preaoca, distrito de Cascavel, o autodidatismo do artista surgiu ainda na ado­lescência quando deu seus pri­meiros passos como desenhista. Claro que a queri­da cidade natal em pouco tem­po ficou pequena e o menino foi tentar a sorte em outras pla­gas, numa pequena prévia da vida de eterno viajante que iria desenvolver tão bem no futu­ro.

Com este pensamento, Fortaleza foi, escolhida para Luiziniciar sua profissionalização. Participou de vários salões e, em 1979, realizou sua primeira exposição, uma série de dese­nhos apresentados no Náutico Atlético Cearense.

Coincidência do destino ­reafirmando a tese de que ter talento é primordial, mas um pouco de sorte não faz mal a ninguém – naquela época esta­va de passagem pela cidade, o crítico Mark Berkowitz, que elogiou o trabalho do jovem ar­tista, prevendo que ele tinha tudo para se transformar num grande nome. A partir deste momento Luiz Hermano teve a consciência absoluta da neces­sidade de correr o mundo, em busca de experiência e, princi­palmente, aprimoramento.

A primeira etapa foi na mís­tica região de Cuzco, porta de entrada para os mágicos e mis­teriosos Andes. Lá, trabalhou e viveu por alguns meses até de­cidir retornar para o Brasil, instalando-se primeiramente em Curitiba.

Na capital paranaense pas­sou a dedicar-se a gravura em metal. Este momento, por si­nal, marcou o início da sua in­cursão por várias técnicas. Depois da gravura o objeto do desejo foi a pintura, presente em sua produção até os anos 80. Seguiu-se em então, desde o início dos anos 90, as desco­bertas dos trabalhos tridimen­sional.

Antes de toda essa epopéia, Luiz fixou-se em São Paulo, onde debutou com uma exposi­ção no Masp. Nesta época in­tensificou sua participação em salões e bienais internacio­nais, como a V Bienal Del Gra­bado, em Porto Rico, em 1981, IV Bienal Internacional de Seul, Coréia, 1983, II Bienal Pan-Americana de Havana, Cuba, 1986, e Salão Helena Rubinstein, São Paulo e Paris, em 1986.

Antes disso, Luiz ganhou uma viagem da Fundação Mo­kiti Okada para estudar em Nova York, em 1982, e em se­guida era contemplado com o prêmio Chandon de Arte e Vi­nho, para especialização na Europa, onde ficou por dois anos.

Em Paris expôs individual­mente na Galeria Debret, em 1984, quanto também realizou sua primeira exposição de pin­turas, no Paço das Artes, em São Paulo.

O resultado foi uma boa receptividade de público e crítica, inclusive com rasgado elogios de gente do quilate de Ivo Zanini e Alberto Beutten­muller. Foi também nesta épo­ca que ele concretizou o primeiro retorno ao Ceará, ex­pondo na Arte Galeria. O feito só se repetiria três anos depois, em 1987, com a série “Aeropla­nos”.

Antes disso, ele vivenciou uma experiência única. Duran­te a realização da 19ª Bienal Internacional de São Paulo, que reuniu artistas de 50 paí­ses, Luiz Hermano foi o único representante do Norte Nor­deste.

Levando cinco telas de gran­ de formato, carregadas de ex­pressiva simbologia, Luiz foi um dos mais comentados artis­tas da mostra. A justificativa dessa aceitação é dada por ele mesmo. “Meu trabalho tem coi­sas do Ceará, do Nordeste, do Brasil, da América Latina, do Universo. Não gosto do rótulo de regionalismo”.

Com certeza, a universalida­de sempre foi algo presente na obra de Luiz Hermano. Tanto que hoje seus trabalhos são uma realidade que já encanta­ram públicos de Paris, Berlim, Madrid, Lisboa, Havana, Seul Santiago e Porto Rico, entre outros. Isso eqüivale também para as premiações que continuaram a sucederem-se ao longo dos mais de vinte anos de carreira.

 

O cobre e o bronze a serviço da versatilidade

Aos 44 anos, Luiz Herma­no ainda mantém alguns resquícios do adolescente que deixou a pequena Preaoca, em Cascavel, para vencer no seleto circuito das artes plásticas. Se a timidez ainda se mantém uma cons­tante, o artista hoje está bem diferente. Dono de uma versatilidade que permite transitar por desenvoltura por vários segmentos de sua arte – como o desenho, a pin­tura, a escultura – Luiz la­pidou em bronze, alumínio, cobre ou mesmo aço inoxi­dável, seu nome entre os melhores.

Passado mais de dez anos, Luiz está de volta ao Ceará para uma mostra es­pecial no Centro Cultural do Abolição. São 10 traba­lhos inéditos onde mais uma vez a simplicidade e as formas orgânicas são explo­radas através de uma pre­dominância latente do cobre. “Já trabalhei com madeira, cipó, mas o cobre é nobre e quando envelhece, fica bem bonito”.

Em cada uma delas Luiz Hermano mostra o seu pra­zer com o trabalho manual. “Tem alguns trabalhos que surgem completos”, afirma, lembrando, porém, que ou­tros chega a iniciar de uma maneira e ao final o resulta­do é completamente dife­rente da concepção original.

A mostra também aconte­ce num momento especial da vida de Luiz Hermano. Recentemente ele empreen­deu o exercício de que mais gosta – depois de sua arte, é claro – que é viajar. Foram dois, A meses de andanças pe­la sia, em especial pela Tailândia, onde o contato com a população e cultura locais, lhe mostrou o quan­do de semelhanças podem existir entre povos tão dis­tantes geograficamente. “A receptividade e alegria do povo é muito parecido com a nossa”, afirma.