Rose Frizzera. Sutileza zen. Publicado no jornal A Gazeta, 18/03/1996 por ocasião da exposição no Espaço UFES, Vitória, ES – 1996

Em meio à encosta do Morro da Vargem, em ibiraçu, rodeado pela Mata, o ar tista plástico cearen­se, radicado em São Paulo, Luiz Hermano deu forma a sete escul­turas em bronze, cobre e alumí­nio. Ele foi o primeiro hóspede do espaço-residência da estação cultural, e suas peças, fruto de um emaranhado de fitas metáli­cas, fios e canos, trazem a sutile­za zen que, entre uma forma e outra, lembra a topografia da re­gião e alguns aspectos da vegeta­ção. A exposição, que foi apre­sentada para convidados na Esta­ção Cultural Morro da Vargem, sábado, será aberta ao público amanhã, na Galeria Espaço Uni­versitário, na Ufes, às 20 horas.

A exposição é resultado da primeira experiência da estação cultural como “residência” para artistas. Uma construção espa­çosa e simples permite aos ar­tistas o contato direto com a na­tureza e o convívio com a rotina de um mosteiro. Inaugurado há um ano, com os trabalhos de Tomie Ohtake, o espaço abri­gou Luiz Hermano de janeiro a março, quando o artista desen­volveu as obras a serem mostra­das nas exposições.

A principal obra é Coração — peça de 1,5 metro —, uma ten­tativa de ligação com a última individual de Hermano, Me­mória, quando desenvolveu um cérebro de um amarrado de molas. A estadia na “casa de vidro”, como Hermano batizou a estação cultural, foi de inten­sa criação. O dia começava ce­do, por volta das 6 horas, com a luz invadindo o lugar. A paz e o isolamento contribuíram pa­ra a acelerada produção.

Hermano demonstrou ser im­possível produzir em meio à na­tureza sem deixar-se envolver por ela. Prova disso é que o tra­balho era interrompido por volta das 16 horas para um sagrado ba­nho diário de cachoeira, aos pés do Morro da Vargem. “É diferen­te trabalhar aqui. O vento e a pai­sagem levam a outros estímu­los”, confessou Luiz Hermano, em pleno processo de criação.

Muitas das obras acabaram re­produzindo imagens que ficaram gravadas em sua memória. Uma das esculturas lembra as monta­nhas que cercam o Morro da Var­gem. Uma outra, a asa de uma libélula. Outra, uma cachoeira em queda. Nenhuma, porém, foi concebida para representar estas imagens. Talvez elas te­nham surgido da memória im­pregnada pela natureza do lugar onde foram concebidas. “São obras abertas às diversas interpretações”, ressaltou Hermano.

O jornalista e escritor paulista Ademir Assunção, que assina o catálogo da exposição de Her­mano, associa o trabalho do ar­tista ao da cigarra de Bashô — um dos grandes mestres da poesia japonesa. Para o escritor, as obras de Hermano estão impregnadas de sutileza. “Assim como a cigarra, que canta até estourar-se por dentro, revelando a armadura da forma em sua casca oca, os trançados de Hermano revelam, ao mesmo tempo, a aspereza dos fios metálicos e o espaço que flu­tua em torno deles”, associa As­sunção.

O escritor não assina o catálo­go por acaso: seu interesse pelas filosofias orientais e pelo Zen Budismo vem de longa data. De sua convivência com o monge Daiju, vem uma filosofia que ele já revelou à imprensa capixaba, na época do lançamento de seu livro de estréia, LSD Nô, em 1994. Nô é uma referência ao tradicional teatro de máscaras do Japão do século XIV.

Segundo Ademir Assunção, os monges do mosteiro de Ibira­çu observaram em sua reserva que algumas árvores se sobres­saem mais que as outras. A expli­cação para isso é a simples ne­cessidade de eliminar os gases produzidos pela floresta. “Uma das árvores é empurrada para ci­ma pelo próprio meio ambiente como forma de trazer oxigênio”, explicou, na época, Assunção.

“As obras de Luiz Hermano resultam num imaginário em sin­tonia com este final de milênio”, diz Ademir Assunção, apostando que não há nada mais zen, brasi­leiro e universal.