Rose Frizzera. Um espaço para as artes nas montanhas. Publicado no jornal A Gazeta, em 08/02/1996, Vitória, ES – 1996

Do alto das montanhas do Morro da Vargem, onde está localizada a Estação Cultural do Mosteiro Zen Budis­ta, pulsa um coração. O artista plástico cearense Luiz Hermano, radicado em São Paulo, é hóspe­de da Estação Cultural desde o começo deste ano, e nela tem produzido vorazmente. Ele inau­gura o espaço como ateliê e pre­para exposição com o resultado deste “retiro” para o início de março. Os trançados em metais dão forma a objetos que o artista vai mostrar ao público capixaba com o nome de Coração.

A Estação Cultural foi inaugu­rada em março do ano passado, com a exposição individual da grande dama da pintura brasilei­ra Tomie Othake. Como ateliê, porém, Luiz Hermano está inau­gurando o espaço. Ele é um “ha­bitue” das bienais, tendo partici­pado em 1981, 87 e 91, antes de sair pelo mundo. Entre 1984 e 1985, ele se dividiu entre Paris e Londres, e em 94 fez o circuito Berlim-Nova York.

A última exposição foi em no­vembro do ano passado, na con­ceituada Galeria de Arte Con­temporânea Joel Edelstein, no Rio de Rio de Janei­ro, com o nome Me­mória.

“Esta ex­posição que está sendo mon­tada no mosteiro se­rá Coração”, emenda, rela­cionando os trabalhos. Se em Memória Hermano construiu um cérebro em molas amarra­das, e transitou por obras como Cúbico, Aura, Feijão ou Favo de Som, nesta ele elimina os nomes. “O único obje­to já batizado é o coração — peça de aproximadamente 1,50m, em finos canos de cobre e fios e pla­cas de alumínio”, diz Hermano.

A “casa de vidro”, nome com que o artista e seu assistente bati­zaram a Estação Cultural do Mosteiro Zen Budista, tem sido inspiradora para Luiz Hermano. Das oito obras que ele pretende criar para a exposição, cinco já estão praticamente concluídas.

Tanta criação tem motivo: o dia começa cedo, por volta das 6 horas, com a luz invadindo o lugar. A paz e o isolamento contribuem pa­ra o processo de produção acelerado, só interrompido para um rápi­do almoço, à base de arroz integral e carne de soja — preparada a em panela de barro —, e por volta das 16 ho­ras, um banho de Cachoeira, no pé da monta­nha. Tudo ao som de músicas clássicas. “É diferente traba­lhar aqui. O vento, a paisagem, um outro Estado. Tudo isso le­va a novos estímulos.”

A arte produzida por Hermano não chega a ser conceituai, mas leva a este tipo de leitura. Ele abandonou as gravuras, os dese­nhos e a pintura, buscando alter­nativas que o surpreendessem tanto quanto criar esculturas que representassem um cérebro ou um coração. “Cheguei à escultu­ra buscando um saída da pintura, onde tudo parecia já ter sido fei­to. Não permitia coisas novas”, desabafa Luiz Hermano.

Nesta série semiconcluída, um dos objetos lembra a topografia do Morro da Vargem. “Foi a imagem que ficou na minha cabeça”, diz Hermano, ao reconhecer que mui­tas vezes tem que destruir para re­construir uma nova possibilidade em seus trabalhos. Uma outra peça é uma “malha” que se suporta. E uma trama de fitas de cobre, que segundo o artista lembra a asa de uma libélula.” Ele se adianta em não direcionar sua obra, e arrema­ta dizendo que pode ser também qualquer outra coisa. “Depende da interpretação de cada um.”

Uma curiosa montagem de mola e tubos de cobre foi três ve­zes destruída antes de chegar à concepção final. “Uma obra de equilíbrio entre molas, de gestos direcionados por balanço, como cachoeiras”, define Hermano.

Topografia das montanhas, asas de libélulas, cachoeiras: elementos vinculados direta­mente à natureza, regidos por um coração. “Tem a ver com es­te lugar. Acordo com o sol inva­dindo, já ponho o arroz integral no fogo e começo a trabalhar”, diz Hermano.

O encontro do artista com a Estação Cultural do Mosteiro foi curioso. “Vários dados cruzados me trouxeram a este lugar”, diz. Segundo Hermano, o marchand de sua última exposição, Joel Edelstein, que veio para a expo­sição de Tomie Othake, falou com ele sobre o lugar e a propos­ta do mosteiro. Depois foi o con­tato com a ceramista paulista que freqüenta o mosteiro Kimi Ni. Ainda teve a passagem do Ano Novo, quando participou da ceri­mônia budista, ao som dos sinos.

No último dia 8 ele chegou carregado de material e muita inspiração. “Tem que ter uma proposta para se isolar aqui. É um profundo processo de re­flexão”, diz Hermano, brin­cando que só um “cinco estre­las” como Estação Cultural pa­ra trazê-lo aqui.

O destino destas obras já está bem traçado: abre a exposição no mosteiro, em março, desce com ela para o Galeria Espaço Uni­versitário da Ufes, depois as obras seguem para exposição em Belo Horizonte e, segundo Her­mano, aí é o que mais aparecer.