Luiz Hermano: um mundo de linhas, traços e cores. Publicado na revista Gravura e Gravadores, São Paulo – 1982

É numa terça-feira de manhã que vamos encontrá-lo em sua casa, numa tranquila rua de Pinheiros, São Paulo, escondida entre a av. Rebouças e a Fa­ria Lima. Enquanto prepara o café, ao som dos passarinhos que cantam na horta no fundo do quintal, vai falando com seu tranquilo sotaque de nordesti­no.

“Nasci no interior do Ceará, mas o Rio exercia uma atração muito grande sobre mim. Era como se o Rio fosse a vitrina do mundo. Vivi lá algum tem­po e me desiludi, pois tudo era muita festividade. Mas teve seu lado bom. Foi lá, no parque Lage, que fiz o único curso na minha vida, um curso de férias por 2 meses, com Carlos Martins, sobre técnica de gravura”.

Antes disso, porém, Luiz Hermano passou por uma fase que, se por um la­do angustiante, foi fundamental para que acreditasse no seu talento:

“Depois da fase de esculturas, vol­tei ao desenho, mas eram muito mais projetos esculturais. Nessa época, pirei. Coloquei o pé na estrada e fui por aí, chegando até a alguns países vizinhos. Tinha chegado à conclusão de que não sabia desenhar e o que fazia, então, era mais jogar emoções e cores sobre o pa­pel. Era tudo muito desorganizado, en­fim, o que aparecia no papel. Isso resul­tou no abstrato. Fiquei nesse estilo por um ano e quando voltei ao figurativo, já estava com outras características: era mais caricatural, com movimento. Sen­ti algo diferente e comecei a acreditar no meu trabalho”.

Essa descoberta levou-o à 14 Expo­sição de Desenhos que fez no Masp ­Museu de Arte de São Paulo, sobre a qual Pietro Maria Bardi, diretor daque­le Museu falou:

“O mundo despegado por Luiz Her­mano no festival de uma fauna na qual os sexos são distinguidos através das ca­beleiras, é curioso, agitadiço, satirizan­te. Quem o observa reconhece no dese­nhista um original que despacha num moderno girão dantesco a humanidade espraiada nos limbos da obsessão: testemunha da época maluca em que in­conscientemente vivemos”.

No final de 1981 volta a expor no Masp, só que desta vez com suas gravuras.

Dos traços à pintura

Neste ano de 1983, ao lado de um álbum com 10 gravuras inéditas que es­tá preparando com poemas do crítico Alberto Beuttenmüller, Luiz Hermano partiu para a pintura. Nas suas telas fei­tas diretamente, aproveitando sombras e traços, conserva o universo caótico de suas gravuras. Naquelas em que o de­senho é feito antes, as figuras estão mais comportadas, sem muito movi­mento.

“Ainda é cedo para avaliar do que eu gosto mais, mesmo porque, a lingua­gem da gravura é linha, traço, desenho, ao passo que na pintura o processo e a matéria prima são outros. Mas eu sem­pre quis pintar e, durante muito tempo, fui juntando material para começar a pintar este ano”.

Luiz Hermano, muitas pessoas não sabem como uma gravura pode ser fei­ta. Você poderia explicar para os leito­res d’O Extrato?

“A gravura pode ser serigrafia, que talvez seja a mais conhecida. É essa que se vê estampada em camiseta, tão em moda hoje em dia. O método é o se­guinte: passa-se o desenho para uma te­la através de um processo fotográfico para depois imprimí-lo.

Na litogravura, a matéria prima é uma pedra especial, um calcáreo em extinção, por isso muito caro, mas que pode ser reutilizado. E onde se faz o desenho utilizando um material gordu­roso como o crayon, por exemplo. Com ácido e cola, abre-se os poros da pedra. Tira-se o desenho que foi feito, deixando, então, os poros em aberto, onde se joga a tinta que penetra neles. Coloca-se na prensa para passar ao pa­pel e reproduzir. Falando assim, pare­ce rápido e fácil, mas tudo isso requer muito tempo de trabalho, experimen­tação, pesquisas e descobertas.

A xilogravura é a gravura na madei­ra, feita com goiva. Depois passa-se tin­ta com rolo que só pega no relevo, dei­xando o baixo-relevo branco. Final­mente, na gravura em metal, que é mi­nha especialidade, usa-se uma chapa de cobre, latão mais ou menos grosso ou alumínio. Se você não quiser aprovei­tar o que já está naturalmente gravado na chapa, deve lixá-la até ficar bem lisa. Depois, cobre-se a chapa toda com ver­niz e desenha-se a imagem, ferindo esse verniz. Veda-se as costas da chapa com asfalto ou cola e coloca-se numa bacia com ácido. De acordo com o tempo em que fica no ácido é que se pode con­trolar as linhas — mais profundas, me­nos grossas. Essa riqueza de detalhes é importantíssima na gravura. Depois ti­ra-se do ácido o verniz e com a tinta prensa-se a gravura no papel para as provas.”