Revista Galeria, São Paulo – 1987

Quando em 1979 o artista plástico cearense Luiz Hermano saiu de Forta­leza para instalar-se definitivamente em São Paulo, era dado quase como cer­to o futuro sucesso de sua carreira ar­tística. No mesmo ano, realizou uma exposição individual no Museu de Ar­te de São Paulo e por aí seguiram-se inúmeras participações e premiações em diversos salões, coletivas e bienais nacionais e internacionais, como: V Bienal del Grabado, em Porto Rico, 1981; IV Bienal Internacional de Seul, Coréia, 1983; II Bienal Panamericana de Havana, Cuba; exposição individual na Galeria Debret, em Paris; e este ano realizou duas exposições nos Estados Unidos, nas cidades de Nova York e Washington.

Os trabalhos de Hermano, que ante­riormente eram baseados em temas mitológicos, hoje transcendem para um futuro, englobando símbolos e ar­quétipos com uma abordagem futurista/tecnológica. “Acho que as minhas obras têm referências de várias esco­las de arte, mas eu não sei bem expli­car se é transvanguardista ou outra que possa definir o meu trabalho”, diz o ar­tista.

Autoditada, Luiz Hermano começou sua carreira profissionalmente aos 18 anos, quando decidiu se dedicar exclu­sivamente à produção artística. Nesta época participou do Salão dos Novos, em Fortaleza, obtendo o 1º Prêmio Aquisição.

No início, Hermano realizava gravuras, trabalhava com pastel, produzindo composições abstratas que, segundo ele, “eram trabalhos essencialmente gestuais, sem nada a ver com a repre­sentação da realidade”. Depois passou por uma fase dominada por figuras sarcásticas, quase caricaturas. Os bi­chos apareceram em 1982, com linhas sinuosas e seguindo modelos formais das cavernas pré-históricas. Eles foram se transformando, assimilando carac­terísticas indefinidas, uma mistura da infância do artista, atrás dos cavalos e preás que pegava em arapuca com as figuras de bichos mitológicos.

Há cerca de cinco anos Hermano co­meçou a se fixar na pintura que, para ele, foi uma sequência natural que sur­giu a partir da gravura, passando pelo desenho em variadas técnicas. “Todos os processos e técnicas pelos quais eu já passei foram para chegar no proje­to de minha vida, que sempre foi a pintura”. E é em decorrência dessas suas “transformações/evoluções” que o ar­tista estará apresentando aos visitan­tes da 19ª Bienal Internacional de São Paulo a instalação “Astronave”. São 38 m2 de pintura, divididos em cinco grandes painéis (“Painel de Controle”, “Acoplagem”, “Pirotécnicas”, “Super Nova” e “A História do Vôo”), que fi­carão expostos em uma sala do 1º an­dar do pavilhão, com uma iluminação especial. “Quero passar para o públi­co o universo em sua expansão … ou­tros mundos … uma viagem à galáxia com meteoros, balões, bichos alados e muito mais. Quero que os visitantes da Bienal se emocionem, que pensem e reflitam sobre a imensidão do univer­so e a insignificância do Homem pe­rante o mundo. E, ainda, quero chamar a atenção de todas as pessoas que vi­vem esse cotidiano, para algo trans­cendental”, diz o artista.

Hermano confessa que, quando en­viou o seu projeto para a comissão jul­gadora da Bienal, já esperava a sua aprovação. “Achava que era também uma sequência natural na minha car­reira, a minha participação neste gran­de evento, pois há dois anos as gale­rias e a crítica vêm absorvendo o meu trabalho. E também, o tema deste ano, “Utopia X Realidade”, está inserido em minhas obras”

A exposição que Luiz Hermano reali­zou no ano passado na galeria Unida­de Dois, em São Paulo, intitulada “Bélico”, revelou e marcou um artista ma­duro e seguro em sua carreira e no meio artístico. Como escreveu o críti­co de arte Olívio Tavares de Araújo, no texto de apresentação desta mostra: “Muitas dessas armas, navios e aviões, são ao mesmo tempo máquinas e se- res vivos, e também sugerem brinque­dos infantis. Mas mesmo que o artista talvez possa oferecer uma leitura dos “assuntos” de cada quadro, não é por isso que eles mais nos interessam. In­teressam, primeiro, pela riqueza visual do mundo de Hermano. Ele tem lá os seus fantasmas e os bota para fora através de um trabalho intrincado, la­biríntico, onde sobrevive um “que” do Maneirismo. E interessam, segundo, pela factura, pelo que é matéria pura­mente pictórica, em cada obra e no conjunto… Na “geléia geral”, Herma­no consegue individualizar sua trajetó­ria, sem que ela se pareça com a de mais ninguém”.