Olívio Tavares de Araújo. O viajante em torno de seus sonhos. Publicado no catálogo da Galeria Montesanti-Roesler, São Paulo – 1992 -

Há muitos anos, acompanho de perto e com grande interesse o trabalho de Luiz Hermano, praticamente desde que, em 1979, ele se mudou para São Paulo. Durante algum tempo, a parte mais madura de sua produção foram as gravuras em metal, derivadas de seus desenhos, e, como eles, herdeiras de uma certa tradição fantástica que sempre existiu em sua terra, o Ceará. Até hoje, suas gravuras são cheias de imaginação e de caprichos, no sentido goyesco da palavra. Com uma técnica impecável, evocam sobretudo memórias da infância e outros elementos lúdicos, em imagens que às vezes turbilhonam num espaço meio barroco.

Em meados da década dos 80, Hermano se firmou também como pintor. Talvez tenha sido um pouco motivado pela maré então irresistível da volta à pintura; mas sua adesão veio de dentro, da pura necessidade expressiva. Tanto que ele se recusou a seguir qualquer uma das modas da época e permaneceu fiel à sua figuração fantasiosa, enriquecida por um colorido vibrante e uma gestualidade festiva. Um marco a ser lembrado é a exposição Bélico, de 1986. Por um lado, o título conotava, com precisão, o dinamismo interno das imagens; por outro, brincava consigo mesmo, pois as armas que apareciam nas telas eram navios-quase-baleias, aviões com cara de gato ou de peixe, tanques de parque de diversão.

Menino do interior, brincou com pião, pipa, reco-reco, balão, cata-vento e caxixis (miniaturas de cerâmica), foi às festas populares onde a máscara, o traje e o adereço fazem viver os personagens do rico folclore nordestino. Naquela cultura, trabalho manual era meio de vida e lazer. Cresceu vendo a habilidade do artesão em trabalhar qualquer material disponível – na natureza ou no mercado – para suprir necessidade doméstica, lúdica ou religiosa. Os objetos de Hermano revelam afinidade com este universo cultural sem que isto signifique um dado arcaizante ou uma redução ao artesanal. O trançado que usa para configurar um volume indica, apenas, que antes do porta-garrafa, ele conheceu o covo, o caçuá e a variada cestaria do nordeste brasileiro. Depois, veio para o Rio de Janeiro, estudou gravura com Carlos Martins e em 1979, mudou-se para São Paulo, participou das Bienais de 81, 87, e 91 e saiu pelo mundo.

Com surpresa e prazer descobri mais um Luiz Hermano (ou, desde logo: mais uma faceta do mesmo L. H.) na última Bienal de São Paulo. Sua sala continha só objetos, a rigor situados no limite exato da escultura. Alguns eram pesadíssimos, feitos com vergalhões e placas de metal; outros, muito leves, feitos com delicadas lâminas de madeira trançadas em ritmos suaves. Vários confinavam com a abstração, embora o conjunto conservasse exatamente o mesmo tipo e teor de poesia das gravuras, pinturas e desenhos.

Daquela sala na Bienal nasceu-me a idéia que agora se concretiza na presente exposição. Creio ter percebido então, claramente, a existência de uma espécie de unidade absoluta no universo interior de Luiz Hermano, ao qual ele pode excursionar independentemente da técnica adotada, e que se pode manifestar tanto em signos figurativos explícitos, em temas, quanto em formas abstratas aparentadas a alguns de seus arquétipos. Havia na sala da Bienal duas peças chaves que davam objetivamente todas as pistas. Uma que infelizmente não foi possível reapresentar aqui: um grande cata-vento, com uma estrutura de vergalhões em formato de cone, e com um galinho de metal recortado girando no alto. Outra, a grande escultura abstrata (?) que reaparece nesta sala: colocada na vertical é também, evidentemente, um balão; na horizontal, uma imensa nave espacial, como as muitas com que Hermano povoou suas pinturas dos anos 80.

Vejo-o hoje, na verdade, como um grande viajante em torno de si mesmo, de suas fantasias, sonhos e desejos (e algumas obras são, literalmente, sonhadas antes de sua execução). Não é por outro motivo que imagens relacionados ao viajar aparecem com tanta freqüência em seus trabalhos. A viagem abarca, por outro lado, o macro e o microcosmos, interligados por formas que transitam indistintamente de uma escala para outra. E podemos melhor observar-lhe o itinerário, seus marcos, os pontos de partida e chegada, a rota do périplo poético, tendo diante dos olhos a produção nas várias técnicas e de épocas distintas. Resgatam-se aí, então, as correlações instigantes, e descobre-se a inteireza da personalidade criadora de um artista, de resto, ainda jovem. Através de muitos Hermanos há um só – indício certo de qualidade e permanência.