Olívio Tavares de Araújo. Bélico. Publicado no catálogo da exposição na Unidade Dois Galeria de Arte, São Paulo – 1986 -

Se bem que a pintura seja recente em sua obra, e aconteça de apenas cinco anos para cá, o cearense Luiz Hermano não é propriamente um artista a ser apresentado. Vivendo em São Paulo desde 1979, ele aqui realizou uma produção intensa e reconhecida nas áreas do desenho e da gravura. Lembro-me, com prazer, da quantidade de vezes em que me encontrei com seus trabalhos em salões, nos quais eles eram sistematicamente premiados. Reuniam uma técnica segura (embora auto didática) com uma imaginação muito fértil, uma fabulação agitada, num turbilhão algo barroco de figurinhas espalhadas no espaço, segundo estruturas diagonais ou circulares. O desenho e a gravura de Hermano tinham, também, um poder de sedução imediato. E tanto quanto pelo conteúdo instigante, nos envolviam pelo apelo formal, pela provocação contínua para o olho.

A pintura de Luiz Hermano – que responde ao que ele mesmo considera uma necessidade interior inexplicável – surgiu num momento peculiar da arte brasileira. Assistíamos, por um lado, ao apogeu da volta geral à pintura, que se sucedeu aos anos de experimentalismo e secura conceitual. Assistíamos, por outro, à descoberta, por parte das novas gerações, das tendências mais em moda em todo o mundo, com inevitáveis repetidores tupiniquins diluindo, aqui, o que tinham inventado americanos e alemães. Sem que isso seja um julgamento de valor, a verdade é que quase todos os pintores brasileiros que hoje andam na casa dos 25 anos seguiram as pegadas do neoexpressionismo, ou fizeram “bad painting”. Nem sempre por opção. Às vezes, por falta de técnica, disciplina, e intimidade maior com o pincel.

Não é o caso de Hermano. Talvez por ser um pouco mais velho e mais forte, ele escapou a qualquer regra ou modismo. Sua pintura deriva, na verdade, de sua própria produção anterior. Numa primeira fase (exposta em 74 no Paço das Artes, e premiada num concurso com uma viagem à Europa), era quase uma transposição da obra gráfica para um novo suporte – embora o artista, curiosamente (ou talvez por isso mesmo), evitasse um dos apelos específicos da pintura: a cor. Os quadros eram sombrios, “amarrados”, metaforicamente ásperos e angulosos. No correr dos últimos dois anos, a situação se modificou. A pintura de agora é viva, indisciplinada, agressiva, e cromaticamente bem mais exuberante. A imaginação de Hermano continua delirante e produz um universo ligeiramente misterioso, intrigante. A figuração é pessoal e iconoclasta. O título genérico escolhido para a mostra alude não só a algumas imagens específicas como também ao próprio dinamismo interno da imagem. Trata-se de uma pintura feita com briga e disputa, arduamente. E resulta numa arte nada fácil. Não é bonitinha, não é decorativa, e também não está na onda. Eis um jovem artista corajoso!

Deveria ainda mencionar um certo clima de ludismo que, paradoxalmente, se insinua nas obras. Muitas dessas armas, navios e aviões, são ao mesmo tempo máquinas e seres vivos, e também sugerem brinquedos infantis. Mas mesmo que o autor talvez possa oferecer uma leitura dos “assuntos” de cada quadro, não é por isso que eles mais nos interessam. Interessam, primeiro, pela riqueza visual do mundo de Hermano. Ele tem lá os seus fantasmas e os bota para fora através de um trabalho intrincado, labiríntico, onde sobrevive um que do Maneirismo. E interessam, segundo, pela fatura, pelo que é matéria puramente pictórica, em cada obra e no conjunto. Com ser ainda um desenhista e gravador – tanto que seu próximo projeto retorna a essas áreas -, Luiz Hermano hoje é um pintor. Sua escritura é densa, com superposições e empastamentos, é um grande vigor gestual com o pincel. Isso é, aliás, tudo o que ele deve às tendências importadas. Todo o resto é independente e olha para frente: para o que pode ser uma pintura brasileira dos anos 80, já desvinculada do neoexpressionismo ou de philipgustonismo setentista.

Por se inserir no circuito comercial, esta é, de certa maneira, a maneira, a verdadeira exposição de estréia de Luiz Hermano na pintura. Gostaria que ela marcasse presença como o surgimento de um talento inventivo e original. Isso é uma raridade, uma preciosidade na arte do Brasil em nossos dias. Na geléia geral (para ressuscitar a expressão), Luiz Hermano consegue individualizar sua trajetória, sem que ela pareça com a de mais ninguém.