Nahima Maciel. Arte em objetos. Publicado no jornal Correio Brasiliense, em 11/12/2000; por ocasião da exposição na Referência Galeria de Arte, Brasília, DF – 2001-

Luiz Hermano não gosta de falar sobre sua produção. O artista plástico cearense emplaca sorrisos maliciosos se alguém lhe per­gunta sobre o mate­rial utilizado em de­terminada peça, ou em que estava pen­sando quando criou certa escultura. Her­mano acredita que ex­plicações tiram o mis­tério. E complicam a arte. Mas se o interlo­cutor é persistente, consegue arrancar uma ou outra informação além daquela obtida com rápido passar de olhos pelos objetos. O problema é que as nove obras expostas em Brasília, na Referência Galeria de Arte, instigam o público a buscar o propósito dos materiais usados.

Em ferros velhos e lojas de materiais elétricos, Hermano encontrou boa parte da matéria-prima. Feiras forneceram o res­to. As peças foram nascendo sem compromisso. Assim como não gosta de explicar o processo cria­tivo, Hermano não deixa que conceitos tomem a dianteira en­quanto trabalha. Não pensa no objeto como materialização de uma sentença, mas como ex­pressão subjetiva de sensações e percepções visuais. “Claro que enquanto trabalho não penso nos conceitos. Minha preocupa­ção é achar uma solução nova, diferente, para o trabalho”, expli­ca o artista.

Nesse universo, ele identifica características que permeiam to­da sua obra. A linha é a principal. Está em trabalhos antigos e nos apresentados em Brasília. A geo­metria também, mas sem a rigi­dez das formas fechadas. Hermano pode distorcer um cubo, mis­turar curvas e retas e alongar cír­culos sem ficar preso ao rigor for­mal. É o caso de Enxame, rede de 95 x 110cm construída com capa­citadores de cerâmica. São cinco mil pecinhas atadas umas às ou­tras com ajuda de fios de alumí­nio. Ou com uma peça sem título em que usa lacres de cobre per­passados por fios, também de co­bre, para formar estrutura retan­gular na base e curvilínea no alto. Cobre, aliás, faz parte da trajetória do artista. Aparente ou em acaba­mentos, esse tipo de metal está presente em praticamente todos os objetos. Assim como o ferro.

Hermano ingressou nas artes plásticas como gravador. Nesse ofício, vale lembrar, ferro é a base de tudo, já que as imagens devem ser esculpidas em uma matriz antes de passar para o papel. “Geral­mente gravadores terminam es­cultores. Acho que por causa da alquimia da gravura”, justifica. “E minhas gravuras tinham sem­pre essa linha reta, que hoje está na terceira dimensão:”

Até 1986, quando parti­cipou da 2aBienal Pan­Americana de Havana com as telas da mostra As­tronaves, explorou os su­portes pintura e gravura até esgotar as experiên­cias. A partir de então, co­meçou a se dedicar a ob­jetos e esculturas. O re­sultado esteve na 21ªBienal Internacional de São Paulo. Hermano ganhou sala dedicada exclusiva­mente aos objetos. Neles, resgatava as formas im­pressas nas pinturas da Bienal de Havana.

Hermano nunca quis rotular seus trabalhos de escultura. Vez ou outra, define uma peça assim. Mas prefere o termo objetos. Escultura lembra muito uma coisa rígida, fixa ao pé. Ob­jetos são mais flexíveis”, justifica. Na mostra brasiliense, ele avisa, só há objetos. Todos trazem de­talhes em cobre, menos uma es­pécie de casulo confeccionado com uma tira única de aço inoxi­dável trabalhado em forma de espiral e uma peça confecciona­da com escovas de coco. Mas na­da de muito rebuscado. “Arte li­da com simplicidade, não pode complicar, senão fica cafona. Quanto mais simples, mais elegante”, avisa Hermano.