Marisa Rodrigues. Uma viagem através do fantástico. Publicado na revista Gravura e Gravadores, São Paulo – 1988

Quem ainda não conhece Luiz Her­mano, um artista plástico autodidata que nasceu em Preaóca, entre o litoral e o sertão do Ceará em 1954, sob o signo de Leão, não sabe o que está perden­do. Uma rara oportunidade de conhe­cer um ser humano simples, despojado, sem adereços. Uma figura realmente singular. Agora, quem não conhece as gravuras de Luiz Hermano está per­dendo muito mais. Uma raríssima opor­tunidade de viajar, de graça, por um mundo fantástico, povoado de seres mitológicos que o artista abstrai de seu inconsciente coletivo, das reminescên­cias ancestrais do homem e mistura com suas lembranças da infância.

Desde os oito anos de idade que es­se cearense tímido já esboçava as ‘pri­meiras imagens sobre o papel. Mesmo sem nenhum incentivo da família — os pais se ocupavam com o plantio da ter­ra — ele passava horas debruçado so­bre enciclopédias, deliciando-se com as lendas que falavam de aventuras pelas florestas, guerras medievais e viagens ao redor do mundo. À noite, seus so­nhos eram preenchidos por animais exóticos — seres alados, minotauros, centauros, bisões, duendes, faunos, sa­gitários e sereias.

Não demorou muito para que esses estranhos seres saltassem as fronteiras do universo imaginário e ontológico pa­ra um outro, não menos surpreenden­te, porém real — o mundo das gravuras de Luiz Hermano. Depois de estudar fi­losofia na Universidade Estadual do Ceará, em Fortaleza, durante dois anos, ele decidiu que já era chegado o momento de investir naquilo que queria ser de fato — um artista plástico. E a gravura foi a sua plataforma de vôo. Antes de chegar a São Paulo traçou uma rota própria, que o reteve entre 1979 e 1981 no Rio de Janeiro, onde estudou técnicas de gravura com Carlos Martins no Parque Lage. Em seguida, partiu para Curitiba. Lá ficou até 1983, aprimorando-se na Casa da Gravura. Nesse período, além de participar como aluno e professor de diversos cursos de diferentes técnicas de gravação, tam­bém trabalhou muito. E dessa época o álbum “Universo”, com poemas de Al­berto Beuttenmüller, que ele lançou em 1984 na galeria “Ao Gosto Augusta”, em São Paulo. “Uma espécie de resu­mo de toda a minha obra até aquele momento”, define Luiz Hermano.

É difícil, entretanto, separar a obra desse artista em fases temáticas distin­tas, porque, embora existam, estão muito imbricadas. Analisando-a, super­ficialmente, dá-se conta que o elemento mitológico está sempre presente. Por­tanto, pode-se concluir que o tema é único, porém com desdobramentos que podem levá-lo aos microorganismos das máquinas. Um tema que Luiz Her­mano vem desenvolvendo atualmente em pintura a óleo, mas que deve chegar também à gravura.

Observar as gravuras pode se trans­formar numa viagem através dos tem­pos, com evocações da mitologia grega e seus personagens lendários, passando pelas batalhas medievais, as cruzadas, as expedições até as viagens intergalác­ticas.

Algum crítico mais criterioso pode­ria classificar a primeira fase de produ­ção do artista, entre 1979 e 1982, de “mitológica”. Didaticamente, não esta­ria pecando por preciosismo, pois, real­mente, nesse período imperam as figu­ras extraídas das cavernas e das tragé­dias gregas. Mas não são meras cópias. São muito mais. Trata-se de uma recria­ção da natureza, segundo a organiza­ção do seu mundo interior. A esses se­res ancestrais juntam-se outros, mais populares e mais próximos do nosso co­tidiano, pelo menos, no tempo. São os cães, bodes, cobras, bois e vacas, cava­los e preás. Imagens recuperadas de sua infância e lançadas a uma convivên­cia harmoniosa e integrada.

Alguém já imaginou uma linda se­reia cavalgando sobre um bisão em ple­no sertão nordestino? É exatamente is­so o que surpreende no trabalho de Luiz Hermano. A capacidade extraordi­nária que ele tem de reunir num mundo próprio – o da gravura, seres tão estra­nhos entre si, pertencentes à cultura ­tão distintas e, ao mesmo tempo, tão próximos.

É por isso que, quando se pergunta a Luiz Hermano o que representou esse período de gravador na sua vida, ele responde com um sorriso franco e mui­to simples: “Foi um período muito fe­liz”.

De fato, é um privilégio poder observá-lo em seu ateliê, gravando com delicadeza e segurança cada traço, cada detalhe, e com perfeito domínio das di­ferentes técnicas de gravura. Durante esses cinco anos consecutivos, foram mais de cem gravuras editadas, entre água-forte, água-tinta, ponta-seca, litos e xilogravuras. Entre as mais expressi­vas, vale ressaltar “O Equilibrista” e “A Dança do Bode”, ambas de 1981. Ou ainda, “Viagem à Ibéria” e “A Ilha”, de 1983.

 

MARGINALIDADE

Mesmo fugindo das badalações um artista não pode viver recluso entre as paredes de seu ateliê, mergulhado entre suas telas e tintas, por mais que isso o faça feliz. Um artista também precisa so­breviver e foi por causa disso que Luiz Hermano praticamente encerrou o seu ciclo de gravuras em 1984, com o lan­çamento do álbum “Universo”, partin­do para outras experiências como a pin­tura que, aliás, o levou à última Bienal Internacional de Artes Plásticas, em São Paulo.

Antes de começar sua nova fase, deu um tempo para si mesmo. Isso foi

em 1985, quando viajou para a Europa e aos Estados Unidos. Em apenas um ano perambulando por continentes tão diferentes, com um rolo de gravuras embaixo do braço, vendeu mais do que em quase dez anos de trabalho no Bra­sil, desde o início de sua carreira. Fran­ça, Inglaterra, Itália, Grécia, Dinamarca e também os EUA tiveram a chance de percorrer o mundo fantástico de Luiz Hermano, recriado em suas gravuras, e não deixaram o bonde passar. Já no Brasil, as coisas não são tão simples as­sim. Aqui, um artista excepcional como ele vê-se obrigado a “entrar no esque­ma”. Ou seja, dedicar-se à pintura sim­plesmente porque o mercado de artes plásticas considera a gravura um gênero comum, quase vulgar e primitivo tam­bém.

Durante mais de duas horas de en­trevista em seu ateliê, fazendo prevale­cer o sotaque nordestino, sua marca re­gistrada, Luiz Hermano falou com certo tom de amargura sobre essa marginali­zação. Não só de suas obras, mas das gravuras em geral, por colecionadores, marchands e até pelos críticos, atribuindo-a à desinformação geral que impera nesse País, em todas as áreas. “E um paradoxo – lamenta – pois a gra­vura deveria ser muito mais popular do que a pintura, justamente por causa das cópias que possibilita. Entretanto, acaba ficando elitizada, pois são poucos os en­tendidos que compreendem o seu valor real”.