Maria Hirszman. A arquitetura lúdica de Luiz Hermano. Publicado no jornal O Estado de S.Paulo, em 16/05/2003; por ocasião da exposição na Galeria Nara Roesler, São Paulo – 2003

Luiz Hermano é um artista atento. Volta seus olhos para tudo que está ao seu re­dor, absorve e retrabalha mate­riais como se estivesse construin­do pequenos jogos e desafiando to­dos aqueles que entram na esfera de suas peças a participarem da brincadeira. O caráter lúdico, inte­rativo de sua obra — que aliás sem­pre se fez presente em seus traba­lhos — vem ganhando uma impor­tância crescente em seu trabalho, como se pode ver na mostra que realiza na Galeria Nara Roesler.

A busca por novos materiais e procedimentos acabou levando a um certo esmaecimento do diálo­go com o pensamento construtivo e com os procedimentos artesa­nais. As folhas de cobre deram lu­gar a pequenos monstrengos de plástico que, associados a espon­jas, criam uma grande e macia ex­plosão cromática, intitulada Metamorfose; a tradição de cestaria e te­celagem desenvolvida em seu Es­tado natal, o Ceará, está presente em trabalhos como Monte e Cesta. Mas em vez da palha ou do algo­dão, utiliza petinhas de jogos de al­fabetizar crianças — que teriam a dupla função de mostrar como é possível trafegar de forma livre e bela pelo confuso código da produção contemporânea.

“Meu interesse era subverter a ordem, desestabi­lizar parâme­tros”, conta. A cor é um fator prepon­derante, pois por meio de contras­tes e exageros ele quebra uma certa mesmice que do­mina a produção atual. “A arte con­temporânea está muito elegante, correta, mas tam­bém muito igual”, afirma Como se fosse urna criança, ele passeia por várias possibilidades, cria mosaicos construtivos com míseras forminhas de plástico, re­faz a paisagem de Katmandu usando pequenas peças coloridas de madeira e avi­sa — logo na entra­da, onde colocou a obra Estatística — que suas recei­tas comportam os mais estranhos in­gredientes.

É interessante, aliás, encontrar uma série de ne­xos entre as obras de Hermano e trabalhos emblemá­ticos de outras referências da arte brasileira Não chegam a ser cita­ções, mas percebe-se com clareza que Hermano não busca inspira­ção apenas nos objetos que reco­lhe com um fascínio de coleciona­dor para depois dar-lhes outra cara e espírito; ele parece fazer o mes­mo com a produção de seus con­temporâneos. Suas Torres, esquele­tos arquitetõnicos que se susten­tam sozinhos, remetem indiscuti­velmente às pesquisas de Cildo Mei­reles com as fitas métricas. Já Usi­na do Tempo tem forte relação com Que Horas São, Dona Cândi­da?, de Nelson Leirner, que por uma feliz coincidência pode servis-ta atualmente no MAM.

Hermano já manifestou muitas vezes que tem uma “e norme sede de renovação e atualização”. E real­mente temos a sensação de que ele virou a página ao ver seus traba­lhos mais recentes. No entanto, ele próprio lembra que há em sua obra atual “uma certa poesia com as coi­sas, uma estrutura de fábula”, que remetem às pinturas e gravuras que desenvolveu na década de 80.

Em suma, Hermano transita da apropriação de materiais de con­sumo — “para alargar, engrandecer o meu mundo”— ao resgate de lem­branças e emoções, muitas vezes distantes. Essa questão fica parti­cularmente presente na emocio­nante instalação Campoamor, que o artista começou a fazer pou­c9s dias antes da morte do pai e acabou sendo batizada com seu nome. Trata-se de composição fei­ta de pequenas casinhas românti­cas de madeira, folhas secas e ciscadores (como se chamam no Nor­deste os ancinhos, que Luiz Herma­no usou tanto na infância por or­dem paterna), que se assemelham a mãos que, corno ele, se prolon­gam numa busca incansável, reco­lhendo tudo que está à sua frente.