Maria Hirszman. Luiz Hermano volta a desenhar no espaço. Publicado no jornal O Estado de S.Paulo, em 23/03/2000; por ocasião da exposição na galeria Valu Oria, São Paulo – 2000

Luiz Hermano está de volta, com uma série de trabalhos surpreendentes. Três anos depois de mostrar um conjunto de esculturas marcadas pelo re­tomo à ordem geométrica e cons­trutiva — mesmo que seus quadra­dos e cubos jamais tenham perdi­do o espírito artesanal e precário que marcam sua obra —, o artista tomou um rumo mais livre, vol­tando à mesma galeria com uma obra de forte caráter orgânico, com referências bastante explíci­tas ao corpo humano.

A exposição, que será inaugu­rada esta noite, reserva boas sur­presas. Os trabalhos foram divi­didos em dois blocos. No térreo da galeria estão “as obras mais zen”, como classifica Hermano. Entre eles estão trabalhos de uma simplicidade estonteante, que se assemelham a desenhos no espaço. Há uma peça em co­bre, sem título, que preserva ain­da uma certa lógica geométrica. Mas logo em seguida as formas se suavizam, adquirindo às ve­zes uma interessante languidez, como no caso de Canguru.

Já nas obras do segundo andar há claras referências ao corpo hu­mano: torsos, olhos, línguas, cére­bros, sexos e até cabeleiras. Uma das diversas novidades dessa ex­posição é o surgimento da cor (vermelho, amarelo, verde, e não apenas os tons naturais adquiri­dos pelos metais). Há, por exemplo, uma grande e ambígua estrutu­ra de cobre esmal­tado em verme­lho, meio cheia e meio vazia, que parece resumir a multiplicidade de caminhos toma­dos pelo artista.

Outra caracte-rísticainteressante da produção desenvolvida por Hermano nos últimos anos é a pesquisa de novos materiais. Em vários trabalhos o artista incor­pora objetos de uso cotidiano, co­mo ralos (Cheia), anéis de ferro (Rede de Anéis) ou bobinas de motor (Módulo Contínuo). O seu interesse, no entanto, não se assemelha ao dos neo-realistas nem tem nenhuma intenção de reciclagem. “Tudo é uma coinci­dência; eu estou apenas à procu­ra de novos materiais, de novas possibilidades”, diz.

A diversidade criativa dessa mostra é reflexo direto da curio­sidade e desejo de mudança do artista. “Tenho uma enorme se­de de renovação e atualização”, diz. Com mais de 20 anos de car­reira, Hermano já foi desenhista e gravurista. Levou quase uma década para se aventurar na es­cultura, o que considera um des­dobramento natural de seu trabalho inicial. “Na minha vida, tudo flui e se encai­xa”, brinca ele, di­zendo que mui­tas vezes encontra em seus arquivos o esboço dos trabalhos atuais. “Eu continuo desenhando no paço”, resume.

A preocupação central de Hermano é estética. “Eu lido com 4 beleza, meu mundo é dionisíaco”, diz o artista, afirmando não enten­der por que a arte contemporânea sente tanta necessidade de lidar mas com a pobreza e a feiura que vemos todos os dias nas ruas. Como
destaca Tadeu Chiarelli no texto que escreveu para o catálogo da exposição, suas esculturas “são feitas para serem observadas (e tocadas, pelo menos no plano do desejo)”.

Outra característica interes­sante é o caráter eminentemente brasileiro de seu trabalho. Curio­samente, quanto mais Hermano viaja (nos últimos anos ele des­cobriu, encantado, a Ásia), mais encontramos em seu trabalho elementos que remetem ao Bra­sil. Essa referência, que sempre foi extremamente sutil e que mui­tas vezes dependia dos sugesti­vos títulos dados às obras, pare­ce estar ganhando corpo. Não é à toa que obras como Canguru e Olho têm — mesmo que incons­cientemente — algo da forma da bandeira brasileira.

O artista concorda e se sente feliz em afrontar essa arte dita universal, mas não sabe exata­mente o porquê dessa brasilida­de em sua obra. “Talvez porque vivi até os 13 anos no mato”, arris­ca ele, lembrando de sua infân­cia em Fortaleza. Ou como diz Chiarelli, talvez seja seu “modo de produção precário, originário de um mundo pré-industrial” que acabe transformando sua obra “numa espécie de metáfora mui­to particular de um país como o Brasil, onde modos de produção se entrelaçam e se digladiam com espantosa ‘naturalidade—.