Malu Longo. Visão lúdica do Cosmos. Publicado no jornal O Popular, em 17/05/1995; por ocasião da exposição na Marina Potich Galeria, Goiânia – 1995

Luiz Hermano é um daqueles artistas que deixam seu lugar e partem para a cida­de grande em busca de algo muito maior. A maioria se perde na pro­cura, o que não foi o caso dele, um cearense ungido de luz e ima­ginação que caiu nas graças de Pietro Maria Bardi logo no início da carreira. Das carreiras frustra­das de ator de teatro e filósofo descobriu o caminho através de Carlos Martins com quem estu­dou gravura no Rio de Janeiro chegando em São Paulo em 1979 para expor, de cara, no MASP, privilégio de poucos em fase de batismo.

É este o artista que mostra seus trabalhos a partir de hoje até o dia seis de junho na Marina Po­trich Galeria de Arte, com a expo­sição Objetos. A ressalva é que há algum tempo Luiz Hermano substituiu a gravura pela pintura e mais tarde por objetos. As escul­turas vazadas deste artista “insa­ciável” entram numa fase espacial, sendo mostradas pela primei­ra vez em Goiânia. Elementos de cristais, vidros, arames, alumí­nio, uma profusão de materiais que incitam a imaginação em for­mas espirais, para o artista as for­mas básicas da natureza, que mar­cam sua obra desde o início da carreira.

O trabalho escultórico de Luiz Hermano fez do artista um dos mais expressivos nomes da arte contemporânea brasileira. Lá fora, em exposições nos Estados Unidos e países europeus, con­quistou prêmios e experiência voltando para o Brasil sem perder o impulso criador, sem se prender a influências. “Apenas faço o meu trabalho querendo cada vez mais ser impessoal”, avisa ele, um tímido assumido. Da fase criança nordestina trouxe para sua arte a habilidade artesanal do trançado das cestas e não econo­miza em sinuosidades.

O artista, nas obras que mos­tra em Goiânia, se mantém fiel ao discurso sobre a gênese e a ordem do mundo, presente na fase inicial ainda na década de 70. Para o cu­rador Carlos Scarinci, “trata-se mais de um processo permanente em que se entreveram as figuras originais divinas, híbridas, huma­nas, animais, soltas no espaço e no tempo, que se adestram umas às outras, identificando-se na me­dida em que fazem o mundo.” Os objetos de Hermano chamam a atenção por serem lúdicos e arti­culáveis. O artista lembra que é uma espécie de visão do Cosmos em harmonia.

Unindo o primitivo com a tecnologia Luiz Hermano cria es­culturas que são, em sua essência, partes microscópicas do universo. “A gente é insignificante neste contexto”, afirma. Esta identifi­cação com o Cosmos nunca fugiu das obras de Hermano. Na bienal de 87 ganhou notoriedade pelo projeto Astronave e, nesta etapa, inicia um projeto que chama de Mitologia da Luz. Para o público é preciso criar o clima, daí as montagens bem articuladas de suas exposições merecendo cuida­do rigoroso de iluminação.

Hermano, que brilhou no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no ano passado com a exposição “Esculturas para Ves­tir”, mostra em sua arte pela pri­meira vez em Goiânia. É um pre­sente para a Cidade conhecer a obra tridimensional do artista que não se sustenta em regras ou se espelha em modismos. Cipó, gui­zos, madeira não passam incólu­mes à sua imaginação revelando uma cadeia de sensações carrega­das de significados.

Desvendando a obra

Durante a exposição de Luiz Hermano, o público poderá conhecer melhor o trabalho do artista através de dois vídeos que serão mostra­dos no local: A Imagem e o Objeto e Septuor. O segundo, com direção de Gustavo Guimarães e concepção e pro­dução do próprio Luiz Hermano, pro­porciona uma visão mais clara do imagi­nário do artista. Septuor é uma refe­rência ao “Soneto em ix” do poeta francês Stéphane Mallarmé. Em música é uma composição para sete instrumen­tos ou vozes ou ainda uma referência à constelação-estandarte de Ursa-Maior, de sete estrelas.

As esculturas de Luiz Hermano en­trelaçam conceitos próximos às “mito­logias de luz” se tomando, metaforica­mente, cristalizações de luz. Concei­tualmente o vídeo se completa com um poema de Farid ud Din Mar, A confe­rência (ou a linguagem) dos Pássaros, onde todos os pássaros do mundo, ao voarem juntos, se transformam no pássaro mitológico Simurg, criador de todos os seres.