Luiza Interlenghi. Perfis. Publicado no catálogo da exposição na Luciana Caravello Arte Contemporânea, Rio de Janeiro. versão para o inglês Profiles – 2013 -

As possibilidades combinatórias, o acúmulo e o encaixe de materiais desviados de suas funções originais – aspectos centrais no sólido percurso de Luiz Hermano – estabelecem nas duas séries apresentadas em Perfis um reposicionamento quanto às narrativas autobiográficas anteriormente associadas à sua produção. Retomam aquele núcleo poético à luz do debate histórico travado na tradição construtiva no Brasil. Observador das tramas artesanais assim como das regularidades do industrial, o artista transita entre ambos, retomando, a seu modo, o espaço modernista.

Cortes de perfis metálicos ora configuram blocos que emergem do solo, como icebergs no oceano, ora superfícies vazadas apoiadas na parede ou chão, como na arquitetura dos cobogós. Há em Perfil evidências da tensão transversal entre o sistema e o informal que subjaz aos demais trabalhos. A solda industrial, executada fora do ateliê, viabiliza a fixação de sólidos que, entretanto, logo são desestabilizados pelas variações “gráficas” de suas partes.

Com alguns pontos fixados à parede – nem pintura, nem escultura –, os trabalhos moles, manipulados pelo artista, cedem ao próprio peso. Seja em Verde, Dança ou Gerador, as ondulações desorganizam a grade de plaquetas que irradiam cores, como névoa mínima, nos intervalos vazados de sua geometria – a superfície respira, a cor se abre e contrai.

Mas Dorsal, cuja inclinação sugere vértebras de um corpo metálico em ascensão, ou Gomos, estranho fruto fatiado, indicam a possibilidade de que a proliferação orgânica possa conciliar o vivido (que é múltiplo, irregular, plural) e a forma universal modernista.

 

O lúdico e o humor, afirmações constantes em sua produção, constituem um lastro que permite ao artista articular o tempo fluido do empírico (a precisão possível dos processos que as mãos constroem) e a mecânica do industrial. As mutações infligidas à meticulosa montagem dos perfis moles é comentada em títulos como Montanha-Russa. Já em Gira-Sol, a junção desencontrada dos desenhos internos aos cortes é desafiada pela ironia formal de uma flor.

Ao cruzar distâncias históricas, Hermano inclina-se para aquela temporalidade paradoxal neoconcreta que visa intensidade vital no pensamento construtivo, a calcular ludicamente ângulos alternativos para os jogos de força que a vida faz irromper.