Leonor Amarante. Luiz Hermano. Publicado na revista Galeria, por ocasião da exposição no Museu de Arte Contemporânea da USP – 1990

Com a instalação “Ima­gem/Objeto”, no Museu de Ar­te Contemporânea da USP, Luiz Hermano dá uma guinada radical em seu trabalho e se inscreve num raro círculo de ar­tistas realmente preocupados com qualidade técnica.

Conhecido especialmente por suas gravuras e pinturas, Her­mano, depois de mais de dez anos de arte, se propôs a um novo vôo: atingir a tridimensio­nalidade. A rota escolhida foi a instalação. Como plano de bordo optou por doze objetos feitos com resina, ferro, pedra, arame e madeira, executados com acabamento impecável, que flutuam numa caixa cinza. Acreditando que montagem é tão importante quanto a con­cepção da obra, o artista sou­be trabalhar e valorizar o es­paço reservado para instala­ções, inteligentemente criado pelo MAC.

Embora cada uma dessas es­culturas tenha repertório pró­prio e se traduzam em formas tão diferentes como submarino, hélice, dromedário… há uma unidade de leitura, unidade que não é abalada pela diver­sidade de materiais, porque é resultado de uma proposta ra­cionalista que emerge de uma técnica bem cuidada. Lingua­gem escultórica contida num discurso espacial, “Imagem/ Objeto” reflete também a rela­ção entre os materiais empre­gados e o acabamento formal da obra. Hermano recombina materiais naturais a outros in­dustrializados. Ao mesmo tem­po em que resgata poetica­mente elementos da natureza — através das peças em ma­deira, pedra e ferro —, faz crí­ticas à agressão tecnológica com outras, como o pneumá­tico.

Todo o espaço da instalação recebeu iluminação especial que projeta, através das obras, as imagens de novos objetos. Embora o resultado da monta­gem seja limpo e sofisticado, is­so não quer dizer que Herma­no está só preocupado com o lado artesanal do trabalho. Muito mais do que isso, ele propõe uma ruptura franca. Pensador por formação, Hermano é filósofo das esculturas e escultor das essências. O re­finamento de seu trabalho an­terior com gravuras está ago­ra a serviço da tridimensiona­lidade. São desenhos que, ma­gicamente, com o auxílio da luz, ganham o espaço e até movimento se tocados pelo es­pectador. As duas peças tran­çadas com arames são refe­rências explícitas dos traços contidos em sua obra gravada, trabalhados com linhas que vão além do limite do plano criando volumes e se envolven­do com a problemática da luz. Há uma harmonia aparente como oposição entre elemen­tos contrários, mas não contra­ditórios ou excludentes. Com projeto múltiplo e global, Her­mano faz com que cada obje­to também tenha múltiplas con­figuracões interpretativas. O desenho lhe serviu como pre­texto para acumular imagens. Autor de formas essenciais, Hermano trabalha diretamen­te a matéria fazendo com que o arcaico encarnado em algu­mas peças ressurja com força através de suas diferentes pro­postas.

Nessa nova fase há reminis­cências de seu universo infan­til, quando passava horas de­bruçado sobre papéis, dese­nhando florestas, guerras me­dievais e viagens intergalácti­cas. Todo esse referencial está somado agora a uma mitolo­gia própria povoada por minotauros, bisões, faunos, sagitá­rios e sereias. Como afirmava Kate Kollwitz, a famosa artista alemã, um gravador nunca deixa de ser gravador mesmo fazendo pintura, escultura, aquarela… Dentro dessa pre­missa, “Imagem/Objeto” po­de ser considerado o grande salto de uma ideia gravada.