Katia Canton. O batedor e a concha. Publicado no catálogo da exposição, na Galeria Paralelo, São Paulo – versão para o inglês: The wish and the ladle: drawings and objects – 2014

Podem conchas metálicas, daquelas feitas para servir sopão, permanecer sendo o que são por destino e ainda assim abandonar suas essências para compor uma escultura abstrata? E batedores de clara em neve, simples molas de aço com cabo de madeira rústica, podem eles se desapegar de suas formas primeiras, para juntos se transformar numa série de tapeçarias escultóricas, providos de movimento e som ao menor toque?

Eis a ação singular, uma espécie de operação alquímica, realizada por Luiz Hermano. O artista tem o dom de somar objetos de uso cotidiano que, unidos em composições seriais, se transformam em algo que vai além de suas vocações mundanas. Ganham novas camadas de sentidos sem, contudo, abandonarem o significado primeiro e legítimo de sua existência. Transcendem suas limitações funcionais, pois parecem não se bastar. Buscam extrapolar o que são para tornar-se o que podem ser além. Porém continuam carregando em si a marca indelével de suas origens.

É por isso que o artista optou por resguardar o nome dos objetos no próprio título da exposição: o batedor ainda é um batedor, ainda que se torne também uma série esculturas sofisticadas e interativas. A concha se apresenta corno tal, formando em conjunto uma torre metálica quase geométrica. Sem adulterar sua configuração formal anterior, Hermano resguarda nela sua potência de servir.

As memórias de cada coisa se apresentam, assim, de modo singelo e eficaz, garantindo sua apresentação franca no mundo. É justamente essa duplicidade, essa complexidade tão autêntica que atribui consistente poesia à obra desse artista. Não sejamos razoáveis: nada muda, mas tudo muda. Ou, ao menos, tudo pode mudar.

Podemos seguir a vista pelos desenhos e encontrar neles a mesma sinceridade na apresentação das coisas. Assim também se apresenta a mesma densidade e possibilidade de leituras expandidas. Prova desse jogo de forças aparentemente contrárias está na escolha dos traços, na coloração das formas e na atribuição do título de cada obra.

Tudo começa com a configuração de linhas soltas, que parecem desejar a liberdade de sair para passear. O artista vislumbrou alguma coisa que capturou seu olhar, mas no processo de transcrição do gesto para o papel esse algo ganhara conteúdos e detalhes muito próprios.

Os desenhos, feitos com nanquim, são banhados de tonalidades terrosas, tingidos apenas com café e tinta sépia. Luiz Hermano, natural de Preaoca, no tabuleiro cearense, é um artista que balança nas raízes de sua cultura e história, mas que embala seu repouso com os sonhos de um grande viajante. No início, recém saído da terra natal, o café era substituto barato para a tinta artística. Agora, somado ao nanquim, tornou-se memória, espessura de histórias vividas em meio a tantas viagens, narradas com o olho e a imaginação.

Assim nos seduzem as formas, como os chinelinhos enfileirados, batizados de Bispo (um registro particular de uma obra de Bispo do Rosário), um emaranhado de padrões que parecem células, chamado de Cérebro ou de Casinha de Abelha. Na cidade de sonhos criada por Luiz Hermano, urna Alcachofra (que poderia ser um fogaréu) convive com um Campo de Pouso, uma Casa Voadora (que poderia ser um moinho) conversa, lado a lado, com um Casco (que poderia ser uma Fruta do Conde).