Katia Canton. Entrevista com Luiz Hermano. Publicada no livro Espaço e Lugar, editora Martins Fontes, São Paulo – 2009

Nascido em 1954, em Preaoca, no Ceará, o artista Luiz Hermano faz de sua vida e de sua obra uma constante via­gem de idas e vindas. Seus trabalhos, baseados nessas ca­madas de lugares reais e imaginários, exploram materiais simples e muitas vezes inesperados, como fios de arame, brinquedos plásticos, botões, restos de peças de computa­dores antigos e o que mais estiver à mão.

Você passou a infância no Tabuleiro cearense. Naquela época, imaginava ou fantasiava a cidade?

O fato de ter nascido em um quintal foi muito importante no meu caso e a infância lá também. Por mais que seja triste ou solitária, ela é muito marcante, tudo o que acontece na vida tem relação com essa fase. Toda aquela precariedade em que eu vivi, de certa maneira, aparece na obra, hoje. No início, fiz muitos trabalhos, desenhos, nos quais as figuras interagem. Aos poucos eu encontrei uma mi­tologia, um mundo de fantasias e que era alimentado também pelas enciclopédias, pelas histórias da minha avó, da minha família. Depois, eu tive que conhecer os lugares, viajando para o Rio de Janeiro, para São Paulo e tantos lugares. Sempre fui um curioso.

Desses Lugares fica uma imagem mais forte e a partir dis­so você constrói seus objetos?

Sim, são experiências muito fortes, que encarnam na gente. São peças como a Bantaey Srei [Cidade das mu­lheres), que faz referência a um templo do Camboja. Ela é feita de oferendas, é uma peça feminina. Em Astronauta, eu penso na versão masculina, é uma figura mitológica do futuro, que mistura os deuses e os astronautas. Uma peça dá o caminho para outra, ou para uma família, que também pode desencadear outra série. É uma fluência de ideias que se alimentam a partir do próprio fazer.

Eu viajei para a Ásia, conheci a cultura e a religião do Nepal, do Camboja e da Indonésia e não parei mais. Na Guatemala, em Antígua, por exemplo, realizei obras que falam da vivência nessa cidade, são obras formadas por diferentes brinquedos, que contam histórias.

Eu me interesso, estudo, pesquiso e me identifico com alguns Locais que quero visitar. Tenho a sensação de que já estive nesses locais antes, sinto como que conexões.

Eu desenho essas mitologias sem informação prévia e depois, ao viajar, encontro as mesmas cenas esculpidas em altares, templos. São sempre alegorias, cenas do cotidiano das civilizações, que, de alguma forma, eu já conhecia.

Deve ser uma sensação muito forte de sintonia.

Sim, de confirmação. Eu visito as cidades, os museus, conheço o acervo da humanidade, nas principais cidades do mundo: Londres, Veneza, Paris, Nova York, Praga. Eu trabalho, moro, vivo, vou e volto diversas vezes. Sempre no meu aniversário estou viajando. Essas viagens me sincronizam na latitude e na longitude da vida. É uma vi­vência única – as diferentes cidades, com suas comidas, cheiros, experiências. A vida é muito arrastada, o coti­diano estanca… Em oposição a isso, você pontua sua vida com vivências na pele.