Katia Canton. Tramando formas de fé. Publicado no folder da exposição na galeria Arte em Dobro, Rio de Janeiro – 2004

As obras de Luiz Hermano são campos minados de amor.

A série de vassouras de jardim, estampada no catálogo dessa mostra, remete à memória da infância vivida no interior do Ceará, quando seu pai fazia o menino catar folhas próximas a sua casa.

Lá ia ele, meio a contragosto, trabalhar, limpar o terreno, mapear a área que demarca hoje um espaço e um tempo de afeto, de amor, de lembranças.

Eis que Luiz Hermano se fez artista e cresceu com a memória da ação de arrumar, organizar as coisas do mundo como fazia com as folhas.

Seu fazer artístico começa e também converge num universo particular de desenhos e gravuras, superfícies recheadas com formas mágicas, balões e navios que voam, arcas de Noé de bichos e de gente, monstros estranhos, meio homem meio animais, castelos escondidos em montanhas cheias de entranhas, moinhos pequeninos, quixotescos, brilhantes.

Os desenhos de Luiz Hermano se constroem feito tramas. As coisas tomam forma, criam corpo, se materializam pouco a pouco como nos personagens e na ação das lendas e das fábulas. As formas vão se tramando, crescem no papel como crescem as narrativas que contam suas versões da história do mundo, como crescem os detalhes dos contos que nos narram nossas avós.

Essa é a experiência compartilhada pelo artista.

As esculturas e os objetos que foram ganhando o espaço tridimensional no decorrer da carreira do artista também se constroem na ação de tramar. As obras se constituem tramas porque são extensões do corpo–um corpo vibrátil, que pula, pulsa, ondula e se reorganiza nesses movimentos orgânicos.

As obras de Luiz Hermano têm a qualidade de suas mãos. Mãos que maquinam o mundo, que detalham minúcias, que retorcem fios, que colam pedaços, que encaixam partes distintas para compor um todo. Mãos trabalhadoras, que há algum tempo descobriram o encanto de refazer a função de pequenas coisas, objetos pré-fabricados, brinquedos, restos de móveis e de utensílios domésticos.

Tudo interessa aos olhos atentos do artista.

Aparentemente, apenas, a presença de brinquedos nas construções escultóricas de Hermano remetem à tradição pop norte-americana. Mas, de fato, diferentemente dessa arte, repleta de comentários sobre os limites da soberania da linguagem artística, fazendo uso serial de formas icônicas da cultura de consumo, como latas de sopas Campbell´s, caixas de palha de aço Brillo, a obra de Luiz Hermano se apresenta desprovida dessa ironia.

Para ele, os brinquedos se mantêm lúdicos, minados de lembranças de tempos passados, ecoando esperanças, coloridos como são dos sonhos infantis. Os fios e os pedaços de madeira ou de metal são encaixados com o mesmo jeitinho, truques ensinados na tradição da cultura popular, na arte da gambiarra, do fazer e construir dentro de um estado de precariedade crônica.

 

As obras de Luiz Hermano têm humor porque o artista enxerga a poética de todos os aspectos do cotidiano. Em um universo de aparente falta ou singeleza, ele abre brechas para buscar a semente básica para a vida humana. Em seus desenhos imbricados, nas torres feitas com réguas de arquiteto, nas teias de placas de números, nas línguas feitas de letras, Luiz Hermano trilha uma singela jornada do herói.

Penetra labirintos, dobra curvas, se depara com espelhos multifacetados, se perde constantemente e se refaz no caminho, buscando nesse movimento um sentido épico para a existência. É por isso que toda sua obra é tão cuidadosa, tão trabalhosa, tão minuciosa e, ao mesmo tempo, simples, liberta de ilusionismos.

A mesma tensão entre as tramas quase precárias que ele constrói com as mãos e os objetos industriais dos quais se utiliza para compor um todo está espelhada na formação do artista, natural da pequena cidade cearense de Preaoca, habitante da caótica e enorme São Paulo, e cidadão do mundo, viajante incansável, que demarca suas andanças pelos múltiplos cantos do mapa mundi.

Juntando mundos tão diversos, Luiz Hermano delineia um repertório das coisas diretas e poéticas. O artista organiza sua subjetividade, geometriza seus brinquedos e objetos nos fios de uma trama generosa, plena de fé na memória da vida.