Katia Canton. Luiz Hermano: o metal e a liberdade. Publicado no catálogo da exposição na Ária Galeria de Arte. Piedade, Jaboatão, PE; e na Kolams Galeria de Arte, Belo Horizonte, MG – versão para o inglês: Luiz Hermano: metal and freedom – 1999 -

Luiz Hermano utiliza ligas de bronze, alumínio, aço inoxidável e cobre como matérias-primas que são seriadas, organizadas, subvertidas, torcidas e montadas. O resultado são tapeçarias metálicas e orgânicas que brotam do chão, do teto e das laterais, sobem pelas paredes e engolem os espaços físicos em diálogos formais e conceituais poderosos e surpreendentes.

Hermano não se liga a escolas ou movimentos específicos e por isso não pode ser facilmente caracterizado. É artista de síntese. Sua produção atual consta de dois ingredientes principais: o metal e a liberdade. Urbano e regional, radicalmente contemporâneo e consciente da importância da tradição, agrega todas as suas experiências e, com elas, compõe um corpo de trabalho que evoca com precisão e originalidade o “espírito do tempo” contemporâneo.

Para perceber isso é só olhar seus cubos feitos em séries que se repetem, se ligam fios e dobradiças até que, de geométricos, passam a ser orgânicos e, de estáticos, passam a sugerir — e, às vezes, até mesmo a incorporar — movimento. Consciente das heranças abstratas e minimalistas, suas obras são, na verdade, pura subversão da geometria. Formando redes irregulares de volumes, as formas se encaixam, engatam, estruturam correntes que pendem para um lado e para outro, compõem gradeados cheios de vazios flutuantes, tornam-se tecidos móveis que se organizam de maneira inusitada.

Manipulando a geometria até que ela se torne flexível e tátil, as construções de Luiz Hermano exploram a forma escultórica serial até o ponto em que elas dissolvam seus aspectos mais rígidos e, conceitualmente, se tornem uma espécie de história.

Não se trata, porém, de tecer uma história de narrativa retílinea, com começo, meio e fim. Em arte, neste final de século, após as heranças deixadas pela abstração e pelo readymade, contar uma história é munir-se de todos esses legados, incorporando a eles uma atitude voltada ao significado, ao conteúdo, aos astros enviesados que brotam dos próprios arranjos formais construídos pela mão do artista. Pois, em suas esculturas abstratas e quase-geométricas, Hermano articula a construção de “narrativas enviezadas”.

Mesmo sem uma capacidade motora explícita, as esculturas de Luiz Hermano contém um potencial de movimento constante. Indagam ao espectador seus aspectos mais flexíveis e mutantes; pedem para ser manipuladas; mexem com o pensamento, opondo o que são, no instante visível, com o que poderiam ser, nas projeções mais subjetivas.

Compondo seriações, rendadas e reluzentes, que se tornam corpos absolutamente individuais, Hermano contrapõe geometria e organicidade, imobilidade e flexibilidade, abstração e narrativa, sem que esses aparentes antagonismos possam tornar-se de fato contraditórios. É que, numa estratégia sofisticada, todas essas características são articuladas com fluência, compondo uma reflexão materializada sobre o encadeamento possível de todas as coisas. Luiz Hermano parte do caos que envolve qualquer conjunto de possibilidades e, através de sua obra, propõe ao mundo uma nova organização.