Ennio Marques Ferreira. Luiz Hermano. Gravura. Casa da Gravura, Solar do Barão, Curitiba. Também, publicado em 2006, no livro “40 anos de amistoso envolvimento com a arte”. Fundação Cultural de Curitiba, PR e em Brasília, em 1983, no folder da exposição da Fundação Cultural do Distrito Federal, Brasília, DF – 1982

O incessante perambular de Luiz Hermano Façanha Farias parece se fundir e se confundir com a itinerância do artista através dos mágicos territórios da simbologia que ele vem percorrendo a partir do momento em que sentiu pulsar, dentro de si, um Incontido anseio de busca e liberação.

Seguindo esse impulso, deixou as terras cearenses, desceu ao sul do país, atravessou fronteiras sul-americanas até se fixar, momentaneamente, no planalto curitibano.

Mais do que mera aspiração cigana, essa compulsiva necessidade de se locomover na direção de sucessivos horizontes seria o próprio compromisso do artista, de avançar sem se fixar ou retroceder, por um mundo pleno de imagens disponíveis e de tantas outras cidadelas a serem conquistadas.

Nesse percurso, após um prolongado exercício de coordenação gestual no terreno da abstração, a temática figurativa que tomara corpo no desenho e na gravura, começou a adquirir clima e feição definitivos.

Sobre o papel, visões e fantasias barrocas se incorporavam, fluindo numa sucessão de imagens recriadas incessantemente pelo artista, em um verdadeiro caudal de estórias universais com forte cheiro do sertão nordestino.

Luiz Hermano, despojando-se de sua identidade puramente regional, tornava-se então o intérprete dessas estórias que falam não só das experiências por ele vividas, mas também dos fantasmas históricos e do bestiário de todos os tempos e lugares, dispostos em cenários de inusitada movimentação espacial.

Dominando o desenho, Luiz Hermano, levado à gravura pelas mãos experientes de Carlos Martins, está assumindo a real postura do gravador.

De fato, o seu comportamento profissional diante da matriz parece, de certa forma, contradizer as atitudes do homem do mundo, que transpira liberdade e explode em criatividade e emoção. No atelier, onde vive intensamente o equilibrado processo da gravura em metal, ele é o operário disciplinado que não admite improvisações. E sabe que essa evolução técnico-artesanal, embora exija sacrifício e extrema dedicação, ainda é o único instrumento capaz de desvendar os segredos ciosamente guardados pela arte maior da gravura.

Temos a sorte de contar com a força criadora e a presença (até quando?) de Luiz Hermano em Curitiba. Ele aqui chegou, há bem pouco tempo, para receber prêmios na Mostra Anual de Gravura e na Mostra do Desenho Brasileiro e, parece, adotou este tranqüilo pouso para produzir e reproduzir a sua obra.

E, como catalizador consciente e aberto, tem contribu ido para mostrar aos artistas da terra que a gravura é um fecundo meio de cultura para os que a tratam com a devida seriedade.