Elvira Vernaschi. Luiz Hermano: gravuras. Publicado no folder da exposição no Museu de Arte Contemporânea da USP – 1982

Existem pessoas que só se comprazem no difícil/complica­do e pessoas há que amam a simplicidade e a pureza. Luiz Hermano pertence a esta segunda categoria. Simples, no trato com a vida. Puro, nas trocas pessoais. Reflexo/refletido na obra.

Luiz Hermano nunca negou suas raízes, antes, sempre faz questão de sublima-las. Relembra que, desde criança, lá no in­terior do Ceará, garatujava seus bichos, seus gafanhotos, suas paisagens.

Hoje persistem os “bichos” e um “clima” de reminiscência do sertão.

Autodidata, seu aprendizado é constante. Sua atividade, espontânea.

A técnica, de gravura, só a veio conhecer em 1979, com Carlos Martins, no Parque Lage-Rio. Mas, segundo ele próprio, foi fazendo e ensinando que, realmente, descobriu a gravura.

O veículo de expressão tanto pode ser a gravura, como o desenho, a aquarela ou a pintura. O estilo é marcante.

Embora sendo jovem no metier — há cerca de dez anos par­ticipa do circuito das exposições — podemos constatar em sua obra, característica própria e definida.

Explorando inesgotavelmente o território mental, traduzido em infinitiva imaginação, Luiz Hermano constrói um cosmus particular.

Sempre presentes, a inocência/pureza, cujos cavaleiros e castelos rememoram fantasias infantis/castelos de areia e/ou épocas históricas/medioevo (“Montaria”). Ou, a transcendental batalha entre o bem e o mal, onde, sempre, o cavaleiro vence o dragão (“Cruzada”). Ou ainda, a universalidade religio­sa do homem (“Arca de Noé”), onde rompe com os esquemas preestabelecidos. Opondo a um mundo imposto, seu mundo imagético, ele recria sua própria arca. A metáfora é elucidativa: arca x cabra; bichos x homens. Aqui, a justaposição entre o mundo externo (histórico/cultural) e o mundo interno (memó­ria/fantasia).

A expressão criadora, o tratamento postergador de temas históricos são ainda mais exarcebados por uma técnica sin­gular.

Sempre em busca de uma composição ou forma que faça sobressair a força criativa, a imaginação rica e inventiva, Luiz Hermano deforma suas figuras que se tornam, dimensional-mente, maiores ou menores, de acordo com o que pretende acentu rar.

As linhas e formas, sempre sinuosas, podem, fortuitiva­mente, fazer-nos reportar a lições do barroco. No entanto, de­vem ser analisadas como mais um reforço da desierarquisação do espaço/tempo composicional, que é ocupado por figuras visionárias e um mundo fantástico.

Mais do que fazer-nos analisar suas características organiza­cionais, as obras de LuizHermano nos conduzem a refletir so­bre a emocionalidade e criatividade do artista.