Divino Sobral. Esculturas para vestir: a penetrabilidade de Luiz Hermano. Publicado na revista Zapp, por ocasião da exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo – 1994

Não se pode negar que, esta­belecer uma reflexão e cons­truir um discurso que possibi­lite penetrar os problemas instituídos pela visualidade contem­porânea, é um enorme desafio; ain­da maior quando esta discussão é vei­culada em um veículo não destinado especificamente às questões artís­ticas. Entretanto, este é um desa­fio que vale a pena quando se tem um bom motivo, e a recente exposi­ção de Luiz Hermano em Goiânia é um bom motivo, pois desatou as amarras dos mais incrédulos ante as articu­lações da arte contemporânea.

Há muito que se questiona o que é a escultura moderna, e seguramente podemos afirmar que esta dúvida se faz agravada diante das propostas tri­dimensionais com as quais hoje nos deparamos e pelas quais somos esti­mulados a dizer algo. Necessariamen­te, para esboçar uma resposta, temos que levar em consideração os meca­nismos modernos que destituíram os conceitos tradicionais daquilo que du­rante muito tempo foi chamado Escul­tura, um corpo volumétrico, estático e fechado; contudo, não dissolvendo sua definição fundamental sobre a ten­são em três dimensões.

Considerara dissolução de funções simbólicas referenciais, a incorporação da base como elemento integrante no todo do corpo escultórico, à aquisição de processos alternativos de feitio e a apropriação de materiais inusitados, para finalmente compreendermos o objeto contemporâneo como autôno­mo em sua forma e radiador de signi­ficados surpreendentes e ambíguos. Assim, a herança modernista possibi­lita a atualidade uma riqueza infindá­vel de materiais à serem utilizados além de uma intensa gama de ocupa­ções espaciais a serem investigadas, à qual denominamos Campo Amplia­do, e no qual transitam o hibridismo da escultura, do objeto e da insta­lação. Não é muito enfatizar que este campo interfere na acomoda­ção do olhar de forma desconcertante, ao desestabilizar seus velhos valo­res de julgamento artístico.

O campo ampliado pela heteroge­neidade matérica e pelas situações tri­dimensionais em Luiz Hermano, insti­tuem uma recíproca penetrabilidade do espaço e das esculturas para ves­tir. Este momento do artista está re­pleto de indefinições, no sentido em que há o ampliamento do campa e este passa a atravessar o imaginário, propondo-nos Esculturas para ves­tir, que não são exatamente rou­pas, mas sim estruturas que permi­tem a participação do corpo huma­no para efetivar uma outra dimen­são expressiva, teatral, perfomática. As esculturas para vestir – apresentadas em exposição no Museu de Arte Mo­derna de São Paulo, juntamente com o ensaio fotográfico de Bob Wolfen­son – propõem um diálogo com o cor­po, evoluindo do aspecto fetichista configurado em “Corselet”; passando pela alegórica “Lua”, que enquanto ale­goria insinua certa desconfiança so­bre o fechamento de seu significado; pela “Concha”, que reivindica o direito de usar o corpo como suporte, até a condição de invólucro que não veste, mas arma e imanta o corpo humano.

Podemos, com certeza, afirmar que o processo de Hermano cresce à me­dida em que perde suas adequações antropomórficas, para emergir naqui­lo que possui de arquiterural, enquan­to estrutura no espaço, tornada rele­vante, pela intrincada trama gráfica que constitui seus volumes vazados, plenos de penetrabilidade. Os traba­lhos entitulados “A Louca Penetrável”, “Armado”, “Armado em infinito”, colocam a receptividade e a pene­trabilidade de suas estruturas em relação direta com o corpo e com o espaço ambiente, para fazerem evoluir toda a dinâmica coreográ­fica de suas linhas e qualidades ma­téricas. A escultura “O Homem” res­soa a profundidade ambivalente de seus penetráveis ao instituir no es­paço uma arquitetônica protuberância, essencialmente masculina; é síntese involucral, e mais ainda, é o corpo no cosmo, homem e mundo em interati­vidade, corpo e espaço interpenetran­do-se reciprocamente.

Em outro momento, a poética de Hermano se desloca para a investi­gação de um universo feminino, onde a sutileza e a suntuosidade vem ter papel proeminente, atra­vés das materialidades incorpora­das à rotundidade das estruturas espiradas e circunferênciais; suas “Galáxia”, “Quasar” e “Bateria Es­telar”, de imediato nos fazem pe­netrar em um mundo feminil e místi­co, onde o espaço se institui pela on­dulação dos brilhos, da preciosidade das cores e das propriedades acústi­cas que nos apresenta. Este momen­to provem dos sonhos e das fantasi­as, geradores incontestes de obscuras verdades.

O Projeto Plástico de Luiz Her­mano configura, em sua trajetória, a criação de uma cosmogonia an­cestral e labiríntica, originada da ressonância lúdica de memórias longínquas, possibilitando ao pen­samento a penetrabilidade aos mais profundos sentimentos, com os quais o homem pretendeu do­mar a natureza, para satisfazer sua inconsciente necessidade mitológi­ca simultaneamente ao alargar de seus horizontes literários. A recu­peração de ícaro e do vôo artificio­so de suas asas clarifica esta vo­cação cosmogônica do artista. Luiz Hermano é assim, uma espécie de dédalo que devota seus dias ao de­senho. Há muito que ele concreti­za na volúpia do gesto gráfico suas ricas mensagens; foi assim na gravura, na pintura e é assim hoje em seu grafismo tridimen­sional, que é exatamente a volume­tria vazada, penetrável, de seus corpos escultóricos.