Daniela Labra. Rede Concreta/Trama Orgânica. Publicado por ocasião da exposição na Galeria Arte em Dobro, Rio de Janeiro – versão para o inglês: Concrete Web/Organic Mesh – 2010

Luiz Hermano, artista cearense radicado em São Paulo, traz para sua individual no Rio de Janeiro obras criadas a partir da vontade de justapor os indicativos de um pensamento racional concreto a outros mais orgânicos, menos contidos numa rigidez da forma pura. Longe dos típicos clichês, ele propõe na geometria abstrata de suas esculturas-rede, uma discussão amigável sobre a oposição complementar entre a suposta eficiência do racionalismo concreto paulistano, e a exuberância sensual das formas sinuosas cariocas.

O que em princípio indicaria um simples contraponto conceitual entre modos operacionais distintos, explicitados aqui nas formas mais e menos rígidas da exposição, é na verdade algo que está presente em todas as esculturas-rede de Luiz Hermano, em diferentes níveis. Esse diálogo entre construção racional e espontaneidade orgânica vem a ser uma característica que permeia o processo e obra do artista ao longo de seus 30 anos de carreira.

As incontáveis estruturas de tramas e amarrações produzidas nesse tempo, com os mais diversos elementos, são resultado da fluidez intrínseca ao procedimento criativo, que também tem um lado cerebral, matemático, contido no ato contínuo de acumular e escolher objetos impensáveis, para aglutiná-los organizadamente em estruturas moles. É importante frisar, contudo, que as esculturas-rede de Luiz Hermano, embora maleáveis, não almejam uma fenomenologia do corpo participativo, não sendo, portanto, objetos táteis – ainda que tenham movimento e leveza suficientes para serem manipulados sem problemas.

O título da exposição, Rede Concreta/ Trama Orgânica, permite uma reflexão sutil sobre a herança construtiva brasileira na obra deste artista. É interessante notar que sua poética escultórica, abstrata e geométrica, pertence de certa forma aos dois lugares antagônicos e complementares que racharam o movimento concreto brasileiro nos anos 1950.

 

Na produção de Hermano encontramos tanto aspectos da racionalidade e impessoalidade do concretismo paulista, concentrados em valorizar tintas e procedimentos industrias para eliminar traços da subjetividade do autor, como características do neoconcretismo carioca, que a partir da forma geométrica se lançou numa pesquisa profunda do ato experimental, orgânico e relacional na arte.

Formalmente, percebe-se que a sua obra toca todo o tempo na dicotomia concretude versus organicidade, quando utiliza materiais rígidos para criar estruturas flexíveis, ao mesmo tempo racionais e desestabilizadoras de qualquer cartesianismo.

Desse modo, Luiz Hermano reinventa uma categoria de obra de arte. Suas geometrias abstratas são não-objetos que aqui chamei de esculturas-rede, mas que podem ter ainda outros nomes. Os microcosmos que cria são de fato topologias concretas, orgânicas e oníricas pacientemente construídas em tramas e versos, passo a passo, peça por peça, de sol a sol.