Cauê Alves. Estrutura e indeterminação. Publicado por ocasião da exposição na galeria Nara Roesler, São Paulo – 2010

Não é apenas o título da exposição de Luiz Hermano que apresenta ambiguidade. Toda a exposição admite significados polissêmicos. Há nela uma abertura de sentidos que acolhe paradoxos e múltiplas possibilidades de abordagem.

A palavra “conta”, como se sabe, ao mesmo tempo significa uma operação aritmética como as de soma e multiplicação, uma fatura de despesa, uma cobrança, e também uma pequena peça por onde se passa um fio ou arame, usada na confecção de bijuterias. De fato, os trabalhos de Hermano são feitos de contas de resina, plástico, acrílico e madeira. E envolvem um raciocínio matemático para sua elaboração, mesmo que esse raciocínio tenha algo de intuitivo, como se ele fosse sendo tramado espontânea e silenciosamente durante o seu fazer. Trata-se de um pensamento vivo em que não há um fim determinado anteriormente. Para Hermano não há simplesmente um projeto a ser executado, mas sim uma invenção que surge do contato direto com o arame e as contas.

Cada obra é um arranjo contingente porque é uma decisão casual do artista e, ao mesmo tempo, possui uma ordem necessária, uma vez terminada é como se ela não pudesse ser de outro modo. Trabalhos como Continentes ou Caravela são totalidades de partes que não podem ser compreendidas apenas isoladamente, cada uma é uma estrutura, um conjunto coerente. Por mais que nelas exista um modelo que eventualmente vai se somando a outro e se desdobrando, há sempre um princípio de organização. E qualquer modificação parcial acaba exigindo uma nova configuração no todo. A relação entre unidade e multiplicidade é indeterminada. Uma peça pode ser composta de uma única forma ou de várias delas, sendo que alguns conjuntos de partes podem ser separados sem prejuízo ao todo.

Já Rio de contas I e II, por exemplo, são como digramas geométricos que insinuam movimentos, correntes que fluem em determinada direção e formam redemoinhos de cheios e vazios. Nesses trabalhos há uma ordem, uma harmonia universal, como nas formas de mandalas, kósmos; mas também desequilíbrio, uma desordem informe e caótica, o Kháos. Isso acontece porque os trabalhos de Hermano não são apenas derivações de estruturas já dadas e anteriores a eles mesmos, mas eles são a própria estrutura em formação. Por isso, é impossível apreender de uma só vez cada um deles.

Em algumas peças, como a prateada Lua Cheia, a simetria é quebrada com um detalhe, com uma cor ou elemento descentrado e que atrai o olhar desfazendo qualquer condicionamento anterior. Alguns trabalhos como Artifícios, feitos de pequenas peças pretas e brancas listradas, produzem ilusões de movimentos a partir de contrastes acentuados. É como se a obra vibrasse tanto a ponto de parecer estar se expandindo. A luz que incide sobre ela, aliada ao movimento do espectador, promove um jogo dinâmico que impede qualquer acomodação da vista. Conforme nos aproximamos e distanciamos da obra ela se modifica. Entretanto, talvez a relação com a optical art seja menos direta do que inicialmente possa parecer, uma vez que não há na trajetória de Hermano ênfase na pesquisa sobre os mecanismos da percepção. Ao contrário, em vez de explorar o ilusionismo e suas variações a partir de um discurso cientificista ou da ilustração de fórmulas ou receitas, interessa mais o que há de indeterminado na percepção. Além disso, há um aspecto artesanal em sua obra que mesmo que alguns capacitores usados pela indústria de eletrônicos – cuja função primeira é armazenar energia elétrica – sejam usados, já não possuem qualquer funcionalidade.