Carlos Uchôa Fagundes JR. Arte como religião. Publicado na revista Select, Editora Brasi, São Paulo – 2013

A contemplação e a meditação comparecem na obra de Luiz Hermano, cearense radicado em São Paulo, de forma bastante clara: os objetos feitos de pequeníssimas peças cerzidas uma à outra, num processo repetitivo e muito demorado, trazem à mente a ideia de um mantra. Esculturas como mantra, que car­regam o tempo de sua feitura e instauram, como na obra de Shechet, outro tempo também para quem contempla a obra. Curioso sobre tudo que seja da ordem do incompreensível, Hermano advoga que, ao criar outro mundo, é como se cada artista brincasse um pouco de Deus.

Em sua exposição individual realizada, em 2008, na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, Hermano apresentou esculturas que faziam referência direta às figuras hinduístas de Sadhu, místicos andarilhos que se despojavam de todos os bens materiais, de Ga­nesha, símbolo das soluções lógicas, e também às múmias egíp­cias, que simbolizam a busca da eternidade. O artista empreende viagens aos quatro cantos do mundo – dos templos budistas de Angkor, no Camboja, à ilha de Bali e à casa onde teria vivido a Virgem Maria, em Izmir, na Turquia -, em busca de experiências que radicalizem sua prática artística, mas explica que não se filia a qualquer credo. “Minha religião é meu trabalho, ele funciona como uma meditação, porque, enquanto trabalho, eu medito so­bre o mundo e sobre o inenarrável. É uma espécie de mantra que me preenche.” Portanto, quando viaja em busca de experiências diferentes, Hermano internaliza formas, materiais e o impacto de uma geometria desconstruída, ruínas ou vitrais que ressur­gem em seus objetos de maneira mais ou menos abstrata.

O candomblé e a devoção aos orixás têm sido o tema de traba­lho do carioca Ronald Duarte por mais de dez anos. Filho de mãe beata, o artista vem realizando uma série de performan­ces que fazem alusões a certos rituais da religião afro-brasilei­ra. O Que Rola VCV, o primeiro trabalho da série – iniciada em boca com o título Guerra É Guerra -, foi realizado no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, com um ritual em homena­gem a Xangô – o orixá dos raios e do fogo -, lavando as ruas do local com sangue, em referência à violência urbana da cidade.

Em 2003, deu continuidade aos trabalhos relacionados a este orixá em Fogo Cruzado, quando ateou fogo em mais de 1.500 metros nos trilhos do tradicional bondinho de Santa Teresa. “O cerne do meu trabalho está na urgência urbana, nessa vio­lência social que vivemos no dia a dia. A religião não é neces­sariamente o centro da pesquisa, mas por se tratar de uma situação de transcendência não há como separar a situação social da espiritual. Em Fogo Cruzado eu pedia a Xangô para abrir e iluminar os caminhos do Rio de Janeiro, que vivia uma situação de violência cotidiana”, explica o artista.

Mas é Nimbo Oxalá, a quarta performance da série – que até o momento possui dez trabalhos realizados -, a mais conhecida do artista. Realizada em mais de cinco países diferentes desde 2004, a obra reúne um grupo de 20 pessoas vestidas de branco e munidas de extintores de incêndio, que liberam simultanea­mente uma nuvem artificial. Na definição da crítica Mrisa Fló­rido Cesar, ao descrever a obra na ocasião de seu acontecimen­to no Palácio Gustavo Capanema, em 2004, a nuvem artificial “nos envia à irrupção do sagrado e à designação do infinito na tradição pictórica”.

A cor branca da fumaça, segundo o artista, se relaciona com a divindade e com a pureza ligadas a Oxalá, o orixá supremo e responsável pela criação do mundo e da espécie humana. “Oxa­lá guarda as portas do paraíso, da paz e é sincretizado com Jesus Cristo. Em Nimbo Oxalá, fazemos um pedido pela paz e pela volta à natureza e aos valores elementais, que é o que temos deixado de lado no mundo contemporâneo”, reflete Duarte. Em 2013, o artista pretende completar a série com mais duas per­formances. “A ideia é fecharmos a série com 12 trabalhos que seriam os 12 trabalhos de Ronald Duarte”, brinca.