Bené Fonteles. Um cearense expõe no MASP. Publicado no jornal O Povo, em 06/01/1980. Fortaleza, CE – 1980

Foram com mais informações que em 78 comecei a travar um contato firme com a obra de Luiz Hermano, quando me pediu para fazer um texto para o catálogo de sua exposição “Figuras no pedaço”, realizada em julho do mesmo ano na Galeria Credimus. Confesso que não vi entre as obras de Hermano urna grande força gráfica ou urna atitude conceituai e técnica que – me deixasse tocado, emocionado, como gosto de sentir-me diante da obra de um artista. Frente ao trabalho de Hermano via-se um artista em busca de formas a serem definidas, tanto no uso das suas cores ainda primarias para a feitura do essencial em colorir, numa execução ainda na procura de uma forma de ajeitar-se com seu desenho, embora já cheios de traços que lhe conferiam uma identidade – incomum também na maneira de conceituar seus personagens.

Mas era um artista na batalha de expor e se expor é sempre correr vários riscos e Hermano teve coragem de assumi-los.

O texto que escrevi para seu catálogo, torna-se agora importante sua transcrição, Mesmo por que se mudou agora nesta sua exposição no MASP, a maneira de execução, de’ “arte-final” mais completa em sua obra numa elaboração bem arguida da imaginação, pouco mudou da conceituação das estórias de seu trabalho:

“Da busca, da revelação de malucos personagens despidos de suas habituais forças e somente feios como são, sem maquilagens, em gestuais/rituais conhecidos somente por Hermano, que na sua pintura de guache sobre papelão consegue efeitos visuais que rios prende facilmente o olhar e nos questiona uma esquisita realidade.

O importante destas pinturas é a identidade que o artista descobriu e começa a explorar ainda em uma forma bruta como são as figuras bestificadas, sombras de apocalipse, sonhos doidos de uma cabeça imaginosa.

Hermano com sua obra que ainda se inicia, experimentando materiais pobre como o bruto papelão e o guache escolar nos deixa em frente a um desafio grande, muito maior, de sua responsabilidade de transformar com o tempo sua arte aqui experimentalmente testando nossos olhos em efeitos justos de imaginação: “o momento traçou, virou figuras, caricaturas desprendidas de satírico, situação pública social fantástica”.

Portanto o comentário de Hermano nos mostra-se intenso e de uma certa lucidez, mixada loucura que libera com maior facilidades das mãos, para um exercício lúcido onde os gestos são o que interessam, criar, e deixar que o fruto amadureça ao vento, ao sabor do tempo.

Assim sua história que começa ocupando o espaço com crueza, sortidez dós personagens que nos rodeiam o natural habitat passarem a vivenciar maior tratamento/artesanal dentro de sua proposta de: “vivenciar e denunciar o entorpecimento pela rotina”.

Notamos, porém no desenho de Hermano um exercício de maior equilíbrio, curtindo com maior agilidade, labirintos do viver de mil figuras tão estranhas como as que entorpecem sua pintura, mas que deixam ao espectador o gosto de decifrar, de descobrir no amaranhado de traços personagens de um desenho limpo, vivido e cheio de fartas sutilezas.

 

Enquanto de sua pintura ele fala de: “a cor uma brincadeira arbitrária, jogo alternado de intuição” ao seu desenho cabe a extensão de suas próprias palavras: “equilíbrio, acontecimento, magia, arte”.

Acredito no trabalho de Hermano e sua vontade danada de transformá-lo, de buscar nas raízes da cabeça, povoada

de sonhos tão jovens corno ele, de sonho, que também pesam sobre a r sponsável cabeça dos que c on tem p ora ría m en te vivem num planeta conturbado, quando de repente a arte é uma caricatura destes processos, destes fantasmas soltos na rua atormentando as boas e sensíveis almas que acreditam na arte. O trabalho deste artista é um reflexo do tempo, da busca, da linguagem redimida a um, nem que seja somente um. instante de pureza. O importante acima de tudo num trabalho é a experimentação, e a coragem de mostrar a liberdade criativa mesmo cheias de arestas transforma tudo num espetáculo de arte e seguir em frente ouvindo a Deus e o mundo, até que a consciência chegue à verdade parecida com a de Leonardo: — Arte é urna magia da mente.

Hermano sabe disso, sabe o caminho e só isto já é muito vasto.”

No catálogo postal muito bem bolado da sua exposição agora no MASP, o diretor do museu Pietro Maria Bardi assim -se expressa:

“O mundo despegado por Luiz Hermano no festival de uma fauna na qual os sexos são distinguidos através das cabeleiras, é curioso, agitadiço, satirizante. Quem o observa reconhece no desenhista um original que despacha num moderno girão dantesco.