Antônio Gonçalves Filho. Demônios de Luiz Hermano invadem o Paço das Artes. Publicado no jornal Folha de S.Paulo em 09/05/1984, por ocasião da exposição no Paço das Artes, São Paulo – 1984

Há algo de formativo nas pinturas em têmpera/vinílica e gravuras que o artista cearense Luiz Hermano, natural de Preaoca, expõe, a partir de hoje, no Paço das Artes (Avenida Europa 158). Não poderia ser de outra forma, se considerarmos sua trajetória: aos 29 anos, vários prêmios importantes em salões nacionais e bienais internacionais, o imaginário do menino Luiz Hermano Façanha Farias foi povoado pela memória ancestral de seres míticos registrados por criadores da fase pré-clássica e, mais interessante, por figuras rupestres que remontam a períodos onde fazer estava incorporado ao ser.

Seus novos trabalhos são, portanto, recriações. Bem, na verdade são mais que recriações, são resultantes de uma pesquisa quase arqueológica guiada pela intuição, de onde emergem seres fantásticos criados sem artifícios estilísticos – dragões, anjos, demônios, unicórnios – mas de composição tão rica quanto os traços naturalistas dos pintores das cavernas. E, como eles, o artista não utiliza outro material além daquele que a própria natureza oferece.

 

– Os pigmentos – conta Luiz Hermano – são retirados da própria terra e preparados por mim. Quando estive em Congonhas, Minas Gerais, vi que poderia utilizá-los, porque o processo de transformação da terra é de execução simples e barata (ele estará ensinando a técnica, desde o preparo dos pigmentos à impressão de gravuras, no próprio Paço das Artes, durante a exposição, que se encerra no próximo dia 27). Além disso, desejava trabalhar com a matéria natural nesta série, conservando a relação também natural com a temática representada.

 

Foram necessários dois anos para que a série de pinturas em têmpera/vinílica e as 25 gravuras ficasse pronta. Para se manter fiel à “reconstrução arqueológica”, Luiz Hermano retirou as figuras das telas, suprimindo o bastidor como suporte (os estranhos seres que tempos imemoriais sugerem são retirados, assim, do contexto pré-clássico, para invadirem as salas do Paço das Artes). Esse tem sido, afinal, o objetivo perseguido pelo artista desde que começou a pesquisar os símbolos e signos dos ancestrais, culminando com a religiosidade cósmica de “Arca de Noé”, uma exposição que fez no Masp, em 1979, onde cabras tomavam o lugar de arcas e homens metamorfoseavam-se em bichos.

 

Autodidata, Luiz Hermano começou sua carreira em Fortaleza, traçando em pastel composições abstratas ainda sem muito ritmo. “Era um trabalho essencialmente gestual sem nada a ver com a representação da realidade. Depois, passei por uma fase dominada por figuras sarcásticas, quase caricaturas, típicas de quem não sabia, ainda, desenhar. Os bichos apareceram em 1982. De linhas sinuosas e seguindo modelos formais das cavernas pré-históricas, eles se transformavam, assimilando características indefinidas, uma mistura das minhas lembranças de infância, atrás dos cavalos e preás que pegava em arapuca, com as figuras de bichos mitológicos.

 

O mercado de arte, contudo, ainda não absorveu seu trabalho, a despeito das reconhecidas qualidades do artista. O renomado pintor Glauco Pinto de Moraes, por exemplo, considera-o um dos mais expressivos valores da nova geração. O crítico Alberto Beutenmuller, seu grande incentivador, fez questão de ter suas gravuras ao lado de seus poemas, no livro “Universo”, hoje uma obra rara, feita quase artesanalmente por Luiz Hermano. Premiado no Salão Nacional de Artes Plásticas da Funarte há dois anos, Hermano já representou o Brasil em duas bienais da Coréia do Sul e por duas vezes foi premiado na mostra anual de gravura de Curitiba.

 

Nesta exposição que faz agora no Paço das Artes, ele estará ensinando, numa oficina livre de gravura em metal, a sua técnica a todos os que se interessarem (a inscrição e os materiais do curso são grátis). A oficina funcionará às terças e quintas das 15 às 18 horas. As telas e gravuras de Luiz Hermano estão à venda e podem ser vistas de terça a domingo, no Paço, das 14 às 21 horas.