Angélica de Moraes. Barco contra a correnteza. Publicada na revista Veja em 24/05/1989, por ocasião da exposição na galeria Fogo Paulista, São Paulo -1989 -

Luiz Hermano enfrenta a maré alta da pintura com uma impecável exposição de gravuras em metal em São Paulo. Mesmo sob a avalanche dos quilômetros de arte expostos na última Bienal de São Paulo, em 1987, um pintor brasileiro sem grande fama conseguiu imprimir sua marca na memória de muitos visitantes, Luiz Hermano – um cearense hoje com 34 anos, radicado há dez em São Paulo – afirmou-se com sua imaginação delirante, solta em enormes telas, povoadas de naves espaciais coloridas e astronautas flutuando no espaço sideral. Os abundantes detalhes se organizavam numa composição de evidente resgate do olhar infantil, sem nenhuma falsa ingenuidade. Os quadros chamavam a atenção também por representarem algo cada vez mais raro entre artistas jovens: a boa pintura, original e sólida, tanto na idéia como na execução.

Não bastasse essa façanha, Luiz Hermano realiza outra. Numa época em que o imediatismo e a busca do sucesso instantâneo lançam às urtigas as técnicas artísticas mais depuradas, ele expõe, até o final do mês, na galeria Fogo Paulista, em São Paulo, uma série de dezesseis gravuras em metal, com preços de 80 a 180 cruzados novos cada uma, sendo que sete delas formam o álbum Projetos para Dias de Chuva, (500 cruzados novos). Para realizar essas imagens, sensíveis e bem-humoradas, ele serviu-se, com eficiência, de uma técnica de gravação secular, reputada entre as mais complicadas de todo o arsenal das artes. Desde o século XV, quando surgiu na Alemanha, a gravura em metal é produto de um paciente trabalho de inscrição de imagens através do uso de instrumentos de ponta afiada, vários banhos de ácidos e cuidadosas aplicações de vernizes sobre uma chapa de cobre polida. Após essa química, está pronta a matriz que irá receber tinta para imprimir as imagens no papel, com o uso de uma prensa pesada.

Ferramenta – Ao longo desse elaborado processo, são grandes as tentações de exercitar a técnica pela técnica, desaguando-se na execução virtuosística de algo sem estofo de idéias. Luiz Hermano passeia por diversos recursos da gravura em metal – água-forte, água-tinta, verniz mole e ponta seca -, sem fugir de seu universo pessoal. Embora o colorido vibrante tenha cedido terreno para os tons baixos, o clima de reminiscências lúdicas e a obsessão pelas máquinas de viajar (navios, aviões, submarinos) continuam. Para chegar a esse resultado, Hermano buscou o aprendizado formal de arte uma única vez. Autodidata, herdeiro direto da tradição de arte fantástica que floresce no Nordeste, durante um mês foi aluno do gravador Carlos Martins, num curso de verão na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro.

Martins não economiza confetes. “É raro ver no Brasil alguém como Hermano, que já tem um projeto bem nítido na cabeça quando vai buscar a ferramenta da técnica”, observa. Mas o artista não é um convertido recente da gravura. Na verdade, o metal é anterior à sua trajetória na pintura. O gravador só apareceu para o público depois do pintor, por uma dessas deformações do mercado de arte nacional. “Aqui, quem trabalha com arte sobre papel é considerado artista menor, as galerias não querem nem ver, deixam no limbo”, acusa Hermano. Depois de várias exposições de gravuras em espaços culturais pouco divulgados, a forma que ele encontrou para abrir caminho na selva foi empunhar pincéis e paleta.

Felizmente, a pintura não ficou artificial no conjunto da obra gravada, apesar das características tão diversas dessas duas técnicas. E o pintor não engoliu o gravador, que retorna para mostrar as delicadas nuances de um mundo de sonho, como no álbum Projetos para Dias de Chuva, no qual lembra seu fascínio de garoto do interior com os modelos de brinquedos de armar, mostrados nas revistas de trabalhos manuais, que tentava imitar.