Angélica de Moraes. Um resgate bem-humorado da infância. Publicado no Jornal da Tarde, em 17/09/1992, por ocasião da exposição na Galeria Montesanti-Roesler – 1992 -

Poucos artistas revelados nesta última década têm a obra marcada por um imaginário tão coerente e um desenvolvimento técnico tão harmônico quanto o cearense de 38 anos Luiz Hermano. Com a mesma voltagem de talento, ele produz gravuras em metal, desenhos, pinturas e esculturas. Em todas elas há a expressão de um universo muito pessoal, povoado de fragmentos de memórias da infância, brinquedos, projetos de engenhocas e bichos de anatomia híbrida, a propor o prazer da invenção e do sonho. Hoje à noite, Luiz Hermano inaugura uma exposição individual que volta a sugerir ao adulto o resgate sensível e bem humorado das descobertas infantis.

Luiz Hermano mora em São Paulo desde o início dos anos 80, depois de ter abandonado a sua terra natal para morar no Rio de Janeiro durante um curto espaço de tempo. O suficiente para o único aprendizado artístico formal de seu currículo: aulas de gravura em metal com Carlos Martins, um dos melhores nomes dessa exigente técnica no país. “A bagagem fundamental para meu itinerário de artista veio mesmo da minha vidinha interiorana”, conta, lembrando a infância pobre de brinquedos de lata e pedaços de madeira para fazer miniaturas de aviões e submarinos, lembra.

O gosto pelo desenho vem dos rabiscos de menino inventor de mecanismos. A pintura surgiu depois, um pouco influenciada pela festa de tintas patrocinada pela geração 80. Ao contrário desta, porém, Hermano não se rendeu ao fascínio de tendências em voga no exterior. “Sou um pouco teimoso”, admite. Tratou de traduzir para as telas as viagens intergalácticas que inventava no papel. O passo seguinte foi visto na última Bienal internacional de São Paulo, no ano passado. Hermano se revelou um escultor competente e sensível, capaz de produzir peças de grande invenção no uso do espaço e parentesco visual direto com o universo gráfico de sua obra.

A exposição que o artista inaugura hoje se organiza como uma demonstração muito nítida e quase didática dessa trajetória. A curadoria do crítico Olívio Tavares de Araújo tratou de sublinhar o fio condutor dos trabalhos. As duas grandes esculturas que dominam o ambiente fazem a ligação com a mostra mais recente de Hermano, vista pelo público na 21.ª Bienal. Entre as novas esculturas está um divertido e terno rinoceronte batizado de Rino e construído pelo acúmulo de pequenos blocos de madeira, à semelhança de um jogo infantil de armar. “Tenho fascínio por esse bicho, ele me persegue há mito tempo”, diz Hermano. O mesmo animal se repete na gravura, feita há muito tempo, que espia da parede em frente a Rino. Outras gravuras, como a deliciosa “A Bordo”, trazem anatomias fantásticas que lembram um Hieronymus Bosch de bom humor.