Ana Mae Barbosa. Luiz Hermano, intrigando. Publicado no jornal da USP, por ocasião da exposição no Museu de Arte Contemporânea da USP – 1990

Para quem conhece a pintura de Luiz Hermano, o contato com seus objetos é uma nova aventura visual. À medida que Luiz Hemano amplia o uso da linguagem plástica consegue, num esforço poético, vencer a antinomia das artes da pintura, da escultura e da, gravura realizando a transgressão dos gêneros.

Contudo, há uma permanência dos mesmos padrões formais e uma transferência sígnica da pintura de Luiz Hermano para seus objetos e para sua gravura. Há um pensamento associativo também no que concerne à gramática visual. Por exemplo, o entrançado das linhas em sua gravura é um procedimento plástico correspondente ao entrançado de arame de algumas formas tridimensionais. Entretanto, a poética palpável dos objetos amplia o universo de significados explorado em outros meios, conferindo, aos objetos tridimensionais em arame, correspondências com entrançados das redes e de outros instrumentos de pesca como jererés, jequis, espinhais, etc. Esta correspondência não se evidencia na gravura e é conquistada pela contaminação com o conjunto submarino dos outros objetos.

A instalação que Luiz Hermano apresenta no MAC, mais que a celebração do espaço como elemento da obra, é a celebração dos objetos em conjunto. O contexto pré-conceptivo dos objetos se dissolve para que cada um deles conquiste uma persona expressiva que instiga a memória subaquática do observador, recontextualizando-os. É o exercício da imaginação que instala o contexto no qual se opera a associação de opostos: a melancolia do fundo dos oceanos e a euforia do cosmos.

A aventura volumétrica dos objetos auto mutilados recupera resíduos subaquáticos imersos na memória liquefeita e ao mesmo tempo se lança para o alto em isomórficas sombras que sugerem o cosmos.

A instalação como um todo tem um aspecto performático de ritual. Os objetos de Luiz Hermano me intrigam porque a materialidade de cada um, independentemente da matéria de que são feitos (arame, gesso, resina, ferro), confere um neo-primitivismo inesperado potencializando a força das formas antes exploradas pelo artista apenas na pintura e na gravura.