Ana Francisca Ponzio. O ritmo da obra de Hermano. Publicado no jornal O Estado de S.Paulo, em 17/09/1992; por ocasião da exposição na Galeria Montesanti-Roesler, São Paulo – 1992

Das imagens mais evidentes de uma pequena gravura em metal explode um turbilhão de novas formas e signos os — diminutas, em movimento, se revelando no ritmo ido olhar. O mesmo processo se repete, em outras dimensões, nas telas a óleo e, ainda, no grande quadro formado pelo conjunto da exposição, incluindo as esculturas. Algumas formas, comuns a todas as peças (como o balão-aeronave, o rinoceronte, a armadura de linhas entrelaçadas), completam a interligação geral. A ideia, proposital, serve para o autor das obras, Luiz Hermano, demonstrar a interação de seu trabalho. Gravador, desenhista, pintor, escultor, ele acha que, na verdade, é artista de uma coisa só. “Todas as expressões estão contidas uma na outra, assim como as formas que elas projetam”, ele diz. A partir de amanhã, na Galeria Montesanti-Roesler, Hermano mostra uma coleção de peças, feitas de 1982 até agora.

Nascido na cidade cearense de Preaoca há 38 anos, Luiz Hermano se mudou rara o Rio de Janeiro e logo em seguida São Paulo em 1979. Até então, contou com as próprias referências para desenvolver-se artisticamente. “Por esse motivo, acabei encontrando minha própria maneira de trabalhar e criar”, comenta. Original, refinada, lúdica e cheia de vitalidade são algumas das qualidades que afloram da obra de Hermano, que transformou em escola sua apurada percepção. Por meio de materiais como a madeira (utilizada especialmente em esculturas), ele introduz uma evocação primitiva e regionalista em sua obra, sem descartar certa conexão com a arte clássica (os temas de suas gravuras, por exemplo, remetem às imagens de Hieronymus Bosch). Em cada peça, Hermano justifica seu conceito básico, sobre a permanente relação das formas, ideias, ritmos. “Somos a continuação de nossos mestres”, afirma, lembrando que a imensidão das galáxias são prolongamentos ou expansões de imagens microscópicas.