Alberto Guzik. Um guarda-roupa de arte. Publicado no Jornal da Tarde, em 01/09/1994; por ocasião da exposição, no Museu de Arte Moderna de São Paulo – 1994

Desde que os suportes tradicionais da obra de arte foram rompidos, no início do século, os artistas vêm se aventurando em territórios insólitos e ainda não mapeados. Os “wearables” aproximam as artes plásticas da moda. Os parangolés de Hélio Oiticica criaram campos de indefinição entre a roupa e a tela. Essa investi­gação de fronteiras permeou a medula de muitas vanguardas. E está presente nas criações que o cearense Luiz Hermano apresenta a partir de hoje, às 19h, no Museu de Arte Moderna.

Esculturas para Vestir é o nome da mostra, que inclui 18 esculturas de Luiz Hermano e 18 estudos fotográfi­cos a partir das obras por Bob Wolfenson. As Es­culturas para Vestir são peças realizadas em lâminas de madeira, couro, cipó, chapas de cobre, folhas de ouro, telas, molas e arames. O artista moldou, a partir desses elementos, algo que se situa entre a escultura e a rou­pa. As peças têm autonomia en­quanto tais, funcionando como esculturas em si, ao mesmo tempo em que podem ser relidas quando acopladas ao corpo humano. Pa­ra ilustrar essa diversidade de in­terpretações é que foi acrescenta­da à mostra das obras o conjunto de fotos assinadas por Wolfenson.

Quem for ao MAM esta noite, às 21h, poderá ter uma noção bem clara de como as “esculturas para vestir” funcionam no corpo humano. Luiz Hermano apresen­ta um desfile das esculturas, que serão “vestidas” por modelos. As obras da mostra foram concebi­das nos últimos dois anos e reali­zadas no Brasil, depois que o ar­tista voltou de temporada em Ber­lim, Nova York, Paris e Londres.

Hermano, 30 anos, nasceu em Preaoca, no Ceará, e desde’79 está radicado em São Paulo. “Faço ar­te para brincar, pular, ser tocada”, diz. “A vida inteira trabalhei em cima de brinquedos. Quando comecei a criar as obras que estão nesta exposi­ção, as pessoas iam ao meu ateliê e di­ziam que as escultu­ras pediam para ser tocadas, usadas. Daí veio a idéia das `esculturas para vestir’. As peças não são planeja­das, foram criadas no calor de ca­da momento, mas a exposição te­ve uma montagem rigorosa. E há uma iluminação especial, criada por Francisco de Almeida. Quero tocar, estimular a imaginação das pessoas. Chega dessa história de arte morta. Quero arte viva, mui­to viva. Sei que a barra está pesa­da. E é por isso que a gente tem de contribuir para alterar esse estado de coisas.”